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Domingo, Fevereiro 15, 2026

Maria Teresa Horta: O Dia em que o Voo se Tornou Invisível

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Rasgo os poemas
Pelas calçadas do peito
Nas sombras dos silêncios
Das palavras nuas e mudas

Amordaçados gritos
Nas grades das páginas
Esperando o ciciar da ave
Do outro lado do sono

Sou o invisível do voo
Eco de montanha sou
Errante nas garras do sol
Lavro versos de saudade.

in O Invisível do Voo (2021), José Paulo Santos

Hoje, 4 de fevereiro de 2026, assinalamos com o coração em vela o primeiro aniversário da partida de Maria Teresa Horta — a última das Três Marias que, com a sua escrita incandescente, desafiou a ditadura, libertou corpos e palavras, e nos legou uma poesia rente ao desejo, à vida e à insubmissão. Partiu em 4 de fevereiro de 2025, aos 87 anos, em Lisboa, deixando o mundo mais silencioso e, paradoxalmente, mais sonoro — pois as vozes que ela libertou não se calam.

Recordo-a não como estátua de mármore, mas como presença viva nas nossas longas conversas — aquelas em que o tempo se dilatava e as palavras ganhavam asas. Foi nesse diálogo sereno e profundo que nasceu o título do meu último livro de poesia, “O Invisível do Voo”: um eco da sua própria escrita, onde o corpo voa mesmo quando preso, onde o desejo transcende a matéria, onde o invisível — esse território do afeto, do silêncio, da memória — é o verdadeiro espaço da liberdade. Ela sabia, como poucas, que voar não é apenas elevar-se no ar; é habitar o interstício entre o dito e o não dito, entre o corpo e o sonho, entre a palavra proibida e a sua irrupção libertadora.

No ano que se seguiu à sua morte, Patrícia Reis ofereceu-nos A Desobediente — uma biografia densa, íntima e profundamente humana, fruto de conversas prolongadas com a própria poeta e com quem a amou. Mais do que um registo cronológico, é um ato de escuta: Patrícia, mestre em Ciências da Religião e jornalista desde os dezassete anos, soube captar não apenas os factos da vida de Maria Teresa, mas a sua energia telúrica — aquela força que a fez desobedecer sempre: ao pai autoritário, ao marido ciumento, à polícia política, às convenções que prendem o corpo e a palavra.

Maria Teresa Horta não escrevia poemas: escrevia atos de coragem. Nas “Novas Cartas Portuguesas” — obra coletiva com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa — transformou a cantiga de amigo medieval num manifesto contra a opressão das mulheres, num grito que abalou os alicerces do salazarismo e se tornou emblema do feminismo internacional. Foi processada, perseguida, mas nunca dobrada. «Sou uma pessoa extremamente triste, mas não sou frágil. Sempre lutei pela liberdade desde os 15 anos», diria décadas depois, com a serenidade de quem conhece o preço da luz.

Hoje, ao evocá-la, sinto o peso suave das suas palavras, das suas provocações sobre o meu ombro — não como fantasma, mas como semente. Porque ela ensinou que a poesia não é ornamento: é resistência. Que o feminino não é fraqueza: é força telúrica. Que o invisível — esse domínio do que não se vê mas se sente, do que não se toca mas transforma — é onde a verdade habita. E assim, “O Invisível do Voo” carrega-a consigo: não como epígrafe, mas como respiração; não como citação, mas como sangue.

Que o seu voo continue invisível e omnipresente entre nós — nas jovens que lêem “Novas Cartas” pela primeira vez e descobrem que o corpo lhes pertence; nas mulheres que escrevem sem pedir licença; nos homens que aprendem a escutar o silêncio das outras. Maria Teresa Horta não morreu: transformou-se em pássaro de tinta e fogo e cada verso seu é uma asa que nos ensina a voar mesmo quando as grades parecem eternas.

Com gratidão infinita, guardo-a na memória — não como museu, mas como jardim onde as palavras continuam a florir.

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