Luzes na Janela

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II – O dia está cinzento, mas a luz surge onde menos se espera…

Marta gostava de iluminar a casa na época de inverno; dava-lhe a sensação de estar sempre abraçada. Dizia que renascia a cada luz que olhava. Tomás fora habituado neste abraço permanente e longo.

O dia amanheceu cinzento, mas Marta e Tomás não pareciam notar. A caixa de luzes esperava no canto da sala. Saiam do seu habitat na altura em que o frio os visitava. Eram aconchego e meiguice.

Podemos acender já? Inquieto, os olhos da criança brilhavam de expectativa.

Marta sorriu. Primeiro temos de escolher as janelas.

Juntos, caminharam pela casa. Cada lâmpada colocada parecia ganhar vida própria. E Tomás, entre lâmpadas e o emaranhado de fios tropeçava e soltava risadas ao ritmo das luzes que piscavam. Iluminaram o corredor, mais o canto dos livros; era ali que se aninhavam à noite para se ouvirem e lerem histórias. Sentiam os múltiplos abraços das luzes que sorriam, encavalitando-se umas nas outras.

Do lado de fora, a cidade continuava fria e distante. Dentro, havia calor envolto numa ternura brilhante. Um calor que não era o do aquecedor, era outro, mais lento, que se instalava no peito e ficava ali, mesmo quando as luzes se apagassem.

Tomás observou cada luz e muito sério: – Elas vão durar para sempre? Marta aconchegou-o no seu colo, afagou-lhe os cabelos.

Não, mas isso não faz mal. O que importa é que existem agora.

As luzes continuaram a piscar, mesmo sabendo que o vento ou a noite as apagaria um dia. O inverno ensinava-lhes que a beleza não precisava de durar para ser verdadeira.

E naquele instante, Marta percebeu que o inverno podia ser um tempo de milagres pequenos; só eram precisos olhos para os ver e braços para abraçar.

A luz não precisa de durar para ser verdadeira; às vezes basta brilhar por alguns segundos.



Continua…

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