A Guiné-Bissau tinha registado eleições gerais, presidenciais e legislativas sem incidentes, mas na véspera da divulgação dos resultados oficiais, um tiroteio em Bissau antecedeu a tomada do poder pelo Alto Comando Militar que nomeou o presidente de transição, o general Horta Inta-A.
Um novo Governo de transição, que terá a duração máxima de um ano, foi empossado, com nomes do executivo deposto e cinco militares entre os 23 ministros e cinco secretários de Estado.

O Cidadão esteve no Porto a conversar com Lael São Paulo, representante de um grupo de cidadãos guineenses que se manifestavam contra os acontecimentos no seu país.
Lael São Paulo: Nós, como cidadãos guineenses residentes aqui no Porto, decidimos estar aqui durante estas três semanas para manifestar e denunciar os atos que ocorreram no nosso país. Desde 26 de novembro, a Guiné-Bissau foi alvo de um golpe de estado que, na verdade, acreditamos ser uma tentativa de manipulação política para impedir a divulgação dos resultados eleitorais.
OC: Como explica o que aconteceu?
Lael São Paulo: No dia 26 de novembro — um dia antes de serem anunciados os resultados das eleições de 23 de novembro — um grupo de militares ocupou ilegalmente o Palácio Presidencial em Bissau. O presidente Umaro Sissoco Embaló foi detido. Segundo a denúncia da oposição, isto foi feito para impedir que os resultados fossem proclamados, porque existem fortes indicações de que Embaló teria perdido as eleições.

OC: Quem assumiu o poder?
Lael São Paulo: O general Horta Inta-A foi empossado presidente de transição por um período de um ano. E Ilídio Vieira Té, que era ministro das Finanças no governo anterior, foi nomeado primeiro-ministro. O problema é que estas pessoas foram nomeadas pelos militares, não pelo povo, não respeitando o resultado das eleições.
OC: A oposição tem dito que isto é um “golpe simulado”. Explique esta perspetiva.
Lael São Paulo: Exatamente. A Frente Popular e várias figuras políticas denunciam isto como um “golpe simulado” — uma manobra orquestrada para bloquear a divulgação dos resultados. Alguns observadores internacionais, como o antigo presidente nigeriano Goodluck Jonathan, que estava presente como observador, questionaram se isto seria sequer um golpe no sentido tradicional. O que está claro é que houve uma apropriação ilegal do poder e um bloqueio do processo democrático.
OC: E as detenções?
Lael São Paulo: Isto é extremamente preocupante. Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC — o maior partido da oposição — foi detido. Tal como Fernando Dias, o candidato presidencial que reclamava ter ganho as eleições. Segundo a ONU, pelo menos 18 pessoas — funcionários do governo, magistrados e líderes da oposição — foram detidas arbitrariamente. A campanha de Fernando Dias denunciou uma invasão brutal à sua sede de campanha, e a sede do PAIGC foi também invadida. Nós estamos a exigir a libertação imediata e incondicional destas pessoas, porque não há qualquer acusação formal contra muitas delas.

OC: Que resultados é que as eleições de 23 de novembro teriam dado?
Lael São Paulo: Tanto o presidente Embaló como Fernando Dias reclamam vitória. No entanto, observadores eleitorais internacionais estavam presentes e os seus registos indicam que houve claros vencedores. A Comissão Nacional de Eleições tinha os resultados prontos para serem anunciados a 27 de novembro, mas isso foi bloqueado pelo golpe militar. A invasão da sede da CNE impediu que esses resultados fossem proclamados oficialmente, mas a comunidade internacional tem cópias das atas eleitorais.
OC: Como é que a comunidade internacional reagiu?
Lael São Paulo: A condenação foi praticamente unânime. Portugal apelou ao respeito pela ordem constitucional, a Nigéria e a África do Sul condenaram nos termos mais enérgicos, e até a Rússia pediu contenção e diálogo. A CEDEAO e a União Africana afirmaram que isto constitui uma violação dos seus protocolos. O secretário-geral da ONU, António Guterres, acompanha a situação com profunda preocupação. Nós apelamos para que estas organizações internacionais tomem medidas firmes e estabeleçam sanções contra os responsáveis.
OC: Como era a situação política antes deste golpe?
Lael São Paulo: A Guiné-Bissau foi confrontada com uma longa série de obstáculos democráticos nos meses antes das eleições. O principal partido de oposição, o PAIGC, foi impedido de concorrer à presidência. Domingos Simões Pereira foi inicialmente excluído da corrida presidencial por questões formais, embora depois tenha apoiado Fernando Dias. Houve repressões sistemáticas: manifestações foram dispersas violentamente, líderes da oposição tiveram restrições às suas viagens, e a Liga dos Direitos Humanos da Guiné-Bissau denunciou o uso desproporcional de força durante uma manifestação a 21 de novembro.

OC: O que estão a pedir exatamente?
Lael São Paulo: Três coisas fundamentais: primeiro, que se faça a proclamação imediata dos resultados eleitorais, que já são conhecidos; segundo, a libertação incondicional e sem contrapartidas dos detidos políticos; terceiro, que a comunidade internacional — a CPLP, a CEDEAO, a União Africana, as Nações Unidas — tome medidas firmes para restaurar a ordem constitucional e implementar sanções contra os responsáveis pelo golpe
OC: Como caracteriza a situação atual?
Lael São Paulo: A Guiné-Bissau tem uma história de instabilidade política desde a sua independência em 1974. Este é o nono golpe ou tentativa de golpe. Mas desta vez, a tentativa de manipular o processo eleitoral é particularmente grave porque ocorre num contexto democrático — o povo votou, os resultados existem, mas foram bloqueados ilegalmente. O que estamos a ver é uma tentativa de roubo democrático, e nós, como povo, não aceitamos isto.
O Núcleo de Campanha da Intercultural Luso-Santonense esteve também presente nesta manifestação, onde se fez representar por Emílio Resende: “A minha presença aqui é solidária com o povo da Guiné-Bissau. É o internacionalismo que deve existir entre Portugal e todos os países que lutam pela libertação dos povos da opressão e da ditadura. Por isso estamos aqui, colaborando com todos, para exigir a libertação imediata dos prisioneiros políticos que estão detidos injustamente. Estes não cometeram crimes. A liberdade é do povo, e o poder deve ser entregue a quem o ganhou democraticamente. É isto o que defendemos”.

A oposição, incluindo a Frente Popular e líderes políticos, considera o acontecimento de 26 de novembro de 2025 um “golpe simulado” destinado a impedir a divulgação de resultados que seriam desfavoráveis ao presidente Embaló, que, entretanto, dirigiu-se para o Congo.
Portugal, Brasil, Nigéria, África do Sul, CEDEAO, União Africana e Nações Unidas, entre outros, são exemplos de países que integram a condenação internacional dos acontecimentos.
Texto e Fotos: VÍTOR LIMA | O Cidadão
Repórter














