Gaia não merece um “Regresso ao Passado” – Por Amadeu Ricardo

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Quando um partido recorre aos fantasmas do passado, é porque já desistiu do futuro. E o eleitor, se se esquecer, vai pagar de novo a conta.

Luís Filipe Menezes está de regresso. Não por aclamação, nem por mérito renovado, mas por ausência de alternativa. O PSD de Gaia, esgotado, sem quadros, sem liderança e sem coragem para se reinventar, recorre ao seu ex-autarca como quem vai à arrecadação buscar um velho par de sapatos: gastos, ultrapassados, mas “ainda servem”.

Durante os 16 anos em que liderou a autarquia, Menezes fez obra — mas deixou sobretudo uma dívida. Mais de 450 milhões de euros em compromissos sem cobertura, segundo o Tribunal de Contas. Uma empresa municipal, a Gaianima, afundada com um passivo de 15 milhões. E processos judiciais que ainda hoje assombram o município. A cereja no topo do bolo: buscas da PJ no âmbito da Operação Babel, em que a sua gestão foi diretamente visada por suspeitas de abuso de poder e má gestão.

Mesmo fora da autarquia, Menezes não desapareceu. Preferiu manter-se relevante através de acusações graves e infundadas ao ex- presidente da Câmara, Eduardo Vítor Rodrigues — insultos que lhe valeram uma queixa-crime e uma acusação formal por difamação agravada e ofensa a um órgão público. Num país com memória curta, o teatro político substitui facilmente a responsabilidade institucional.

É aqui que está o verdadeiro problema. Não é só o regresso do homem — é o colapso de um partido que, sem ideias nem nomes, aposta tudo num passado problemático. É a desistência da renovação. É o assumir de que não há futuro, e por isso nada mais resta que repetir o que já correu mal.

Mais grave ainda é que a população de Gaia, aparentemente, aceita esta encenação com naturalidade. Como se sofresse de um esquecimento confortável, como se a má gestão, a dívida, as polémicas e os escândalos judiciais fossem apenas notas de rodapé de um tempo “glorioso”.

Mas Gaia não é um laboratório de nostalgia política. É o terceiro maior concelho do país, com desafios reais — sociais, económicos, urbanos. E não pode continuar a viver de miragens ou figuras recicladas que regressam, não por vocação, mas porque ninguém mais quis ou pôde avançar.

Luís Filipe Menezes tem, democraticamente, o direito de se recandidatar. Mas os cidadãos de Gaia têm o dever cívico de se lembrarem do que aconteceu — e do que poderá voltar a acontecer.

Porque quem se esquece do passado, em política, não está apenas condenado a repeti-lo.

Está condenado a pagá-lo — e com juros.

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