A Europa que um dia se quis um farol de liberdade, exemplo de civilização e síntese entre história e esperança, está hoje irreconhecível.
O que vemos já não é um continente em reconstrução, mas uma construção cada vez mais vazia, onde os alicerces cedem sob o peso das contradições morais e cumplicidades gritantes. Estamos a assistir não apenas ao declínio de um ideal político, mas à erosão da própria alma europeia.
A União Europeia tornou-se uma máquina. Uma engrenagem fria, regida por imperativos geoestratégicos e com uma moral seletiva, que exige obediência total e sacrifica sem hesitação os seus próprios princípios. Governos eleitos que divergem da ortodoxia dominante são ameaçados, sancionados, envergonhados publicamente.
A Hungria, a Eslováquia e outros que ousam manter alguma soberania são retratados como traidores — não porque sejam menos democráticos, mas porque não são suficientemente obedientes.
Mas se essa perversão do projeto europeu já seria preocupante por si só, mais grave ainda é o que se passa dentro das suas próprias fronteiras. A crise migratória — sobretudo a migração massiva e desregulada de origem muçulmana — tem sido tratada com uma combinação tóxica de negação ideológica e incompetência política. Cidades inteiras mudam de rosto. As escolas, os costumes, a segurança, os valores iluministas que moldaram a Europa moderna são colocados em causa, corroídos lentamente, enquanto todos os que alertam para esta nova realidade são silenciados ou rotulados de extremistas.
Esta não é uma crítica contra pessoas ou religiões. É uma constatação: uma cultura que recusa defender-se não é inclusiva — é suicidária.
Uma civilização que se envergonha da sua história e abdica da sua identidade não está a acolher o outro — está a desaparecer de si própria.
E como se tudo isto não bastasse, a Europa assiste agora, impávida e serena, ao que muitos no mundo qualificam — com razão — de genocídio em tempo real.
Um povo inteiro, ocupado, cercado, bombardeado, desumanizado aos olhos do Ocidente, está a ser sistematicamente eliminado diante das câmaras. E o que faz a Europa? Emite comunicados equilibrados. Apela à “contenção de ambos os lados”. Reforça acordos com quem empurra os civis para valas comuns.
Este silêncio é cúmplice. Esta neutralidade é moralmente insustentável. Quando a Europa decidiu, no passado, nunca mais fechar os olhos perante o sofrimento humano, não acrescentou asteriscos que excluíam crianças árabes, muçulmanas ou palestinianas. A dignidade humana, se ainda significar algo neste continente, tem de valer para todos — sem exceção.
A Europa de hoje não é traída pelos seus críticos, mas pelos seus próprios dirigentes. A sua política externa transforma-se numa extensão dos interesses dos grandes blocos, a sua política interna num campo minado de dogmas intocáveis, e a sua política migratória numa máquina de desintegração social. O resultado? Uma Europa que já não sabe quem é, para onde vai, nem o que está disposta a defender.
Estamos a perder o essencial. A liberdade de pensar, de discordar, de preservar. A coragem de chamar as coisas pelo nome. E a capacidade de dizer “não” — mesmo que o preço seja alto. Porque é esse o verdadeiro espírito europeu: resistir ao império, seja ele militar, ideológico ou tecnológico. Defender a dignidade contra a opressão, mesmo quando o opressor veste fato e fala em nome da democracia.
Mas hoje, esse espírito está moribundo. E se não o resgatarmos — com lucidez, com firmeza e com verdade — seremos apenas herdeiros da fachada de uma civilização que, no momento decisivo, escolheu o conforto da hipocrisia ao invés da coragem e da justiça
Engenheiro/Colaborador














