Escrevo no meio do ruído mas a minha alma vive na Cabana de Wittgenstein – Por José Paulo Santos

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“A solidão não nos ensina a estar sozinhos, mas a ser únicos.” [Emil Cioran]. Direitos Reservados

Há um lugar dentro de mim que nunca saiu da Noruega, mas que nunca lá esteve também. Um lugar de madeira escura, de paredes nuas, de janelas estreitas voltadas para um lago imóvel, cercado por montanhas de espinheiros-marítimos, pinheiros-silvestres e abetos que parecem guardar segredos mais antigos do que a linguagem. Não é um lugar real — ou talvez o seja, nalgum canto do 61º paralelo norte, onde Ludwig Wittgenstein se refugiou para pensar o pensamento. Mas é ali, nessa cabana isolada no fim do mundo que a minha escrita respira quando o mundo se cala por um instante.

Eu não escrevo lá.

Escrevo aqui — no meio do ruído.

No barulho do trânsito, das mensagens que pipocam no telemóvel, da voz da vizinha que grita com o filho, do ventilador que range na sala da canícula como um velho a gemer memórias. Escrevo com o fundo musical do caos urbano, com o coração acelerado pela urgência do dia, com os olhos cansados de tantos ecrãs. E ainda assim, é nesse caos que brota o silêncio mais fundo — aquele que não depende do mundo exterior, mas que se constrói cá dentro, como um refúgio invisível.

Porque escrever, para mim, não é fugir do mundo.
É trazer o mundo para dentro da cabana.

É agarrar o barulho, a confusão, o excesso — e traduzi-los em palavras que nadam como cardumes no oceano escuro da alma.

A minha inspiração não vem do silêncio dos lugares, mas das tempestades interiores. São elas que me movem. Uma angústia repentina, um lampejo de beleza em algo banal, uma frase ouvida por acaso na padaria, um olhar trocado com um estranho — tudo se torna tempestade. E nessas tormentas, as palavras surgem, como peixes luminosos emergindo das profundezas. Não têm destino, não seguem um mapa. Apenas nadam. Às vezes dispersam-se. Outras vezes, sem aviso, unem-se — e formam um bailado silencioso, um movimento coletivo de sentidos que dança na página.

É assim que escrevo:

como se cada frase fosse um corpo em movimento,
como se cada parágrafo fosse uma coreografia de emoções soltas.
Não procuro a ordem. Procuro a verdade.
E a verdade, sei-o bem, raramente é clara.
É turva, ambígua, cheia de sombras — como a água de um lago norueguês ao amanhecer.


Wittgenstein explorava a precisão da linguagem para conter o caos do pensamento. Eu faço o oposto: uso a linguagem para libertar o caos. Para que ele não me destrua, mas me transforme. Escrevo não para responder, mas para perguntar. Não para organizar, mas para desorganizar — e, nessa dispersão, encontrar algo novo.


A minha cabana não é de madeira.
É feita de pausas.
De segundos entre um pensamento e outro.
De silêncios entre duas palavras.
É nesses intervalos que tudo acontece: onde o mundo exterior se dissolve e as vozes do fundo — as que ninguém ouve, as que vêm de lugar nenhum e de todos os lugares — começam a falar.


E eu escuto-as.
Como quem escuta o vento nas árvores
ou o gotejar da chuva no telhado de uma cabana isolada.
São sussurros da alma, frases que nunca foram ditas, memórias que ainda não aconteceram. E eu colho-as, como quem recolhe folhas caídas, e transformo-as em sílabas, frases, parágrafos, páginas. Em poemas.


Escrevo no meio do ruído,
mas a minha alma vive na cabana.
Não fujo do mundo —
apenas o vejo de longe,
como Wittgenstein via o seu,
do outro lado do lago,
onde o silêncio não é ausência de som,
mas presença de pensamento.


E é ali, nesse lugar solitário e fértil,
que cada palavra nasce:
não como resposta,
mas como pergunta dançante,
como um peixe prateado a rasgar a escuridão,
em busca de um sentido que talvez nunca chegue —
mas que vale a pena perseguir.

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