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Domingo, Janeiro 18, 2026

Entre o gato, o café e aquele olhar

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Vivia sozinho, no terceiro andar de um prédio antigo, o escritor de nome esquecido e coração cansado. Tinha por companhia, Baltazar, um gato cinzento, silencioso e atento, que o observava como se entendesse tudo o que as palavras não conseguiam dizer.

No seu vagar lá vai assistindo aos humores das estações do ano que por sua vez, interferem no seu próprio humor, o que o aborrece amiudamente.

Hoje o dia amanhecera pardacento com ameaças de chuva; o vento da noite atapetara de dourado os terraços das casas. Ele até gosta deste intervalo entre o verão e o inverno; respira-se sem esforço – diz. Mas inquieta-lhe os ossos.

As manhãs começavam lentas: o tinir da colher, o som do papel, o rumor de uma vida pequena. O escritor falava para o gato como quem procura eco – “Achas que alguém ainda lê, Baltazar?” – E o gato respondia com um olhar demorado, desses que não precisam de som.

Todas as tardes ele descia ao Café Vitória, o mesmo há anos. Lá o esperava Helena, a empregada de olhos serenos e voz de algodão. Sabia-lhe o pedido: – O de sempre?O de sempre – respondia. Havia no sorriso de ambos um entendimento manso, feito de hábitos e de silêncio.

Às vezes, Helena deixava um quadrado de bolo embrulhado num guardanapo: – É de ontem, mas ainda está bom.

Ele levava-o para casa e partilhava com Baltazar, partindo-o ao meio com uma espécie de ternura ritualizada. Entre o gato, o café e o breve olhar de Helena, o escritor encontrava o que as palavras, tantas vezes, lhe negavam: uma presença viva.

Nas noites de insónia, olhava a máquina de escrever e pensava em Helena. No jeito como ela pousava a chávena, como o avental se movia quando ela passava entre as mesas. Baltazar, atento, observava-o; Baltazar assustava-se com as rajadas de vento e chuva a fustigarem a janela e aproximava-se, enroscando-se no seu colo.

Numa dessas noites, escreveu apenas uma frase:

“Há afetos que não precisam de nome. Bastam os gestos que ficam entre o silêncio e o olhar.”

No dia seguinte, deixou-a num envelope sobre o balcão do café. Helena leu-a em silêncio e guardou-a no bolso do avental, junto ao coração.

E, todas as manhãs, quando abria a janela e o sol de outono, rarefeito, entrava, Baltazar miava baixinho – talvez por fome, talvez por saudade ou apenas a impor a sua presença.

O escritor recostava-se na cadeira e atirava o olhar para lá da janela entreaberta. Não era preciso mais; estava ali a força de que precisava para continuar. Porque, de algum modo, sabia: entre o gato, o café e aquele olhar, havia uma forma de amor que o salvava do esquecimento.

E o outono lá continuava, num lento andar, entre o ronronar do Baltazar, os pequenos pedaços de bolo de Helena e os silêncios de quem espera outros outonos.

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