Entre a Régua e a Miséria Moral- é a Malta que escolhemos

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Foto de SIC. Direitos Reservados

Num país como o nosso, com os problemas estruturais que nos amaram ao chão — produtividade fraca, serviços públicos a cair de maduros, jovens a fazer as malas porque cá, não se vislumbra futuro — era suposto o Parlamento estar focado no essencial. Reformas sérias. Coragem política. Visão de longo prazo.

Mas não. No dia 27 de Fevereiro o parlamento perdeu tempo a medir minutos a quem dá sangue. A calcular “impactos” administrativos como se um gesto de solidariedade fosse um rombo nas finanças públicas. Como o país reconhecer que quem salva vidas fosse um luxo ao qual o país não pode suportar.
E depois admiram-se.

Já ouvimos no passado para quem não sofre de demência falasse em “pegar fogo ao hemiciclo”, como Alberto João Jardim, numa das suas tiradas inflamadas. E já ouvimos também Manuela Ferreira Leite sugerir que talvez fosse necessário “suspender a democracia por seis meses”, no auge da crise. Frases duras, excessivas, perigosas até — mas que nasceram fruto de um ambiente onde o sistema parecia bloqueado.

O curioso é que, quando chega a hora das decisões concretas, estruturais, que vão mexer a sério no que está mal, o hemiciclo arrefece. A coragem evapora-se. Fica o tacticismo, o empurra-empurra, o cálculo eleitoral.
E ainda têm a lata de dizer que estão a “lutar contra o populismo”.

Lutar contra o populismo?
Isso é o mais delicado cinismo desta cambada.
Porque o populismo não cresce a partir do nada. Cresce quando as pessoas sentem que quem foi mandatado eleitoralmente vive numa realidade paralela. Cresce quando o essencial é tratado como acessório. Cresce quando se discute burocracia enquanto o país real anda a contas com as rendas impossíveis, as listas de espera e os salários que não chegam ao fim do mês.

Querem combater o populismo?
Comecem por fazer política séria e para o qual são pagos. Por dar sinais claros de que sabem distinguir o que é estrutural do que é mesquinho. Por respeitar quem já faz mais pelo país do que muitos discursos de tribuna.
Num país que precisa como pão para a boca de produtividade, inovação e confiança, acham mesmo que é a mesquinhez administrativa que vai elevar o PIB? Que é a negar o reconhecimento a um dador de sangue que nos vai tornar mais competitivos?
Tantos no mesmo sítio, bem pagos, com assessores, gabinetes e motorista se for preciso — e tão pouca grandeza.

Não é necessário pegar fogo a nada.
Bastava acender uma luz.
Mas para isso era preciso o imprescindível, visão. E isso, pelos vistos, é o que mais escasseia.

Num país encostado às cordas com problemas estruturais que nos roubam o futuro, entretêm-se a medir minutos a quem dá sangue como se daí nascesse o milagre económico. Falam em combater o populismo com aquele ar sério, mas praticam o mais refinado cinismo: ignoram o essencial, agarram-se ao acessório e depois culpam o povo pela descrença.

Acham mesmo que é esta aritmética de me..da que vai fazer crescer o PIB? Tantos no mesmo sítio, todos pagos, todos instalados — e tão pouca grandeza, tão pouca inteligência. Triste ironia. Triste país.

 

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