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Segunda-feira, Junho 17, 2024

É possível viver sem viver porque a vida é um reacender constante de sonhos, independentemente dos horizontes que vemos.

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Rosa Fonseca
Rosa Fonseca
Professora e Escritora

Quando ela me disse que é possível viver sem viver, soou em mim um alarme.

Tínhamos entrado na escola primária no mesmo dia e logo ali o nosso olhar se cruzou.
Tinha umas tranças escuras rematadas com laços brancos. Nunca a vi mudar a cor dos laços. Dava-lhe um ar feliz, quase angelical.

Estávamos a construir sem o sabermos, uma amizade que manteríamos pela vida fora. A infância foi para nós um marco fundamental no nosso crescimento – concluímos mais tarde, nas longas conversas que fomos tendo ao longo da vida.

E hoje estou aqui para falar de ti, dos teus sonhos sentados nos bancos da escola que voavam para longe como as aves e regressavam pela noitinha para um sono descansado. Falar daquele dia em que me disseste, entre um café e silêncios que há corações vazios e sonhos sem casa. Tu, que buscaste tão longe o leme dos sonhos, porque acreditaste que além-mar eles poderiam ter asas. Tu, a quem sempre vi um brilho nos olhos e tantas vezes me interroguei onde o tinhas encontrado.

Foi então que conheci a solidão que te pesava como a noite e que nada te interessava porque não havia nada a esperar.
Mantive o silêncio e deixei que falasses palavras inquietas, uma linguagem que conhecíamos bem…tínhamos passado por uma adolescência conturbada.
É possível viver sem viver, atiraste como uma pedra que cai no charco. O ruído doeu. Doeu-me.

A vida não tinha sido meiga contigo. Bebeu-te alguns sonhos de um só trago. Comeu-te a casa onde eles faziam ninho.
Logo a ti, a mais feliz e enérgica da classe. Aquela a quem chamávamos “Sonhadora” e a professora, “Cabeça na Lua”. Fazias e refazias até os nossos sonhos, dando-lhes asas.
E agora estavas ali à minha frente, sem um ponto de luz, de alma desgrenhada e eu só conseguia ver a menina das tranças com laços brancos, envolta nos sonhos que partilhavas comigo.

Há muito que naufragas no caudal de um rio submerso. É doloroso mantermo-nos à tona.
Mas ainda são os sonhos o último reduto da existência.
Ao longo dos tempos fui sabendo das tuas lutas e esforço para concretizares os sonhos que passavam por ajudar os outros, os que tinham pouco e a quem os sonhos eram vedados. Sempre quiseste fazer voluntariado em terras de ninguém.
O teu sonho primeiro era fazer acreditar no próprio sonho.

Apertei as tuas mãos, estavam frias e carentes, mas vivas. Ansiavam por um porto de abrigo onde pudesses renascer.

Já não consigo sustentar os sonhos neste mundo cruel e desumano, que nos obriga a trancar as asas do pensamento.”

Mesmo com lágrimas e dores voltaremos aos bancos da escola e resgataremos os sonhos, que adormecidos não deixaram de o ser.
Porque na vida somos aquilo que nos rodeia e fazemos dela aquilo que os outros esperam. E os sonhos nem sempre se compadecem com a realidade.

Talvez o nosso abraço reacenda os teus anseios e voltes à menina das tranças com laços brancos.
Porque a vida é um reacender constante de sonhos, independentemente dos horizontes que vemos.

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