Nos últimos meses tenho-me cruzado com muitos jovens e costumo interpelá-los sobre o seu percurso de estudos ou já de trabalho.
Destas conversas têm surgido alguns padrões. Os que estudam no ensino superior rapidamente se apercebem se gostam ou não do que estão a estudar. São muitos os que estudam em cursos de grande empregabilidade, como os de Medicina e algumas Engenharias, de enorme procura e que antes de acabarem já são procurados e até contratados.
Quanto aos restantes, que são a grande maioria, a empregabilidade é um assunto bem mais complicado, que precisa de maior reflexão, preparação e esforço.
É sobre estes que tenho vindo a pensar sobre a forma de melhorar essa mesma empregabilidade.
O percurso académico e a posterior Empregabilidade
Quando um estudante entra para a faculdade, está de Parabéns dado que tal significa que terminou o 12º ano e que obteve um diploma de estudos superiores, sendo um período muito importante de crescimento pessoal e que vai mudar a sua vida.
Além do mais, este período de qualificação devia, no entanto, incluir algumas competências mais específicas:
– Gosto adquirido pela leitura;
– Carta de condução;
– Saber nadar;
Faria até sentido que tais competências fossem enquadradas no percurso do 1º ciclo de ensino superior, numa gestão de tempo bem pensada e organizada pelas próprias instituições.
Assim, é natural que o 1º ano seja de descoberta, de adaptação, de abertura ao diferente.
Será um tempo importante de crescimento pessoal, colegas novos, professores com formas diversas de trabalhar, graus de exigência variáveis, instalações e equipamentos específicos, etc. Toda uma nova realidade e em que as novas tecnologias ocupam agora um papel importante.
Também nesta fase ocorre nova escolha de relações afectivas. Ocorrem outras decisões sobre gestão de tempo. Tempo para aulas, para estudo, para vida social, para as actividades extra-curriculares (desporto, cultura, artes, solidariedade, etc.) e para os namoros, se for caso disso. É uma das mais importantes fases de aprendizagem e com grande influência para o futuro.
Assim, é isto que se espera no fim do 1º ano, em qualquer curso: descoberta. Durante este ano surgem, ou deveriam surgir, as primeiras perguntas.
Gosto do Curso ?
O que acho das Aulas ?
Apenas estão disponíveis aulas ou há outras propostas pedagógicas: Workshops, Conferências, Mesas-redondas, Fóruns, Clubes ? Obrigatórias ou facultativas ?
Identifico-me com as matérias e/ou com quem as transmite e vai avaliar ?
Agora num ambiente pós-Bolonha (Junho de 1999 – homogeneização europeia da duração de um 1º ciclo de estudos superiores para 3 anos), de cursos mais curtos, seriam estas perguntas que se esperaria que um estudante no ensino superior se fizesse a si próprio.
Quando chega ao 2º ano, de um total de 3, logo o penúltimo ano, a “conversa” muda e cresce de importância. As perguntas que o estudante se deve fazer a si próprio são outras e as respostas a obter igualmente:
– Ok, gosto do curso, sim ou não ?
Se não, há uma conversa séria a ter com alguém importante, o mais breve possível. Provavelmente é preciso tomar decisões, parar, re-orientar, cada um deve decidir.
Se sim, então, outras perguntas se seguem.
– Vejo-me ligado a esta área e a trabalhar nela durante 20, 30 ou mais anos?
Esta área em que sub-áreas especializadas se divide ?
Se respondeu sim, um novo conjunto de perguntas sobre a área e cada uma das suas sub-áreas, se levanta.
Quem é quem nesta área ? Pessoas, Empresas, Instituições, Departamentos do Estado, ONG´s, etc. Em Portugal e fora. Qualquer delas é um potencial futuro empregador.
É relevante começar a interpelar pessoas com questões ligadas à área. Isto deve ser preparado e seria vantajoso ser conversado entre colegas e/ou até em ambiente de “copos”, de descontração.
Podem começar por interpelar professores com quem haja mais empatia para colocar questões sobre a sua cadeira e se têm algum envolvimento com actividades no exterior. De forma positiva e construtiva.
Identificar publicações (jornais, revistas, newsletters, etc., portuguesas e internacionais) que existam sobre a área, online ou em suporte físico. Conferências, colóquios, workshops que haja sobre a área e, via email ou presencialmente, marcar presença e interpelar as pessoas responsáveis destas publicações colocando questões. Para tirar verdadeiro partido. Isto prepara-se previamente.
Esta proactividade dará bons resultados porque revela interesse, iniciativa, organização, método e uma atitude inconformista, e levará a abrir portas para estágios e/ou como fonte de futuro potencial recrutamento.
Por outro lado, todos sabemos como está a realidade dos estágios em Portugal que na maioria são não remunerados, o que considero um abuso, uma falta de visão, uma utilização de mão-de-obra qualificada gratuita ou de muito baixo custo. Mas revelador de falta de inteligência e estratégia a longo prazo.
Um estágio devia ser entendido como um contrato de trabalho com uma componente de formação. De resto, faria até sentido que uma parte do salário do estagiário fosse destinado a pagar a sua componente de formação, e tal assumido de forma clara e progressiva ao longo desse período de forma decrescente ao longo do mesmo, crescendo a componente de salário a reverter para o seu titular até extinguir o desconto formativo.
Desta forma, haveria responsabilidade de ambas as partes. Do estagiário, que tem um contrato de trabalho e um salário, e da entidade que contratou alguém e de quem espera um retorno. Ao contrário da situação actual, de estágios não remunerados, que são um engano e uma hipocrisia.
Por outro lado, seria de esperar que fossem as próprias faculdades/instituições a terem a sua estrutura pensada para motivar, potenciar e apoiar este trabalho de reflexão paralelo por parte dos seus estudantes.
Acredito que muitas já terão um departamento próprio para tal e já estejam a gerir a informação resultante daí para a tornar útil à futura empregabilidade e respectivos utilizadores.
Este segundo ano do 1º ciclo de ensino superior, reveste esta primordial importância, em que este processo de preparar o salto para o último ano deve começar.
Quando começa o 3º ano, o processo de pontes para o exterior já deve estar começado e será importante analisar qual o estado dos contactos, qual o grau de empatia criado, com quem e sobre o quê.
Será igualmente importante perceber mais claramente que sub-área do Curso, se as houver, reúne a maior preferência ou tendência, para si como estudante. Mais importante é despertar a sensibilidade para as vantagens de haver uma clarificação. Por vezes, este processo decorre ao contrário, de perceber o que não se quer e ir excluindo.
Pensar o Mestrado. Ainda durante este último ano e no âmbito deste processo é tempo de encarar a possibilidade de evoluir para um Mestrado, ou de ponderar uma carreira académica Este deve ser encarado não como um desemprego adiado mas com uma atitude exigente e muito proactiva.
Mas deve ser um período importante de preparar o futuro e o próprio Mestrado é importante que já seja assim pensado, que possa envolver um trabalho de colaboração como alguma entidade exterior no âmbito de algo prático que seja a base desse próprio percurso.
Obviamente, para isso, é indispensável a Instituição estar muito bem enquadrada na comunidade e com conjunto de parcerias para que este dinamismo possa acontecer. As instituições com muito bom funcionamento, encararão isto desta forma, as outras não deixarão de pensar que a sua responsabilidade acabou muito antes, no âmbito de cada aula, cada ano lectivo e na respectiva avaliação.
De resto, e voltando à questão, nenhum Mestrado devia começar sem que o respectivo Director (ou alguém da equipa) se sentasse com cada candidato e tivesse previamente esta conversa:
– A nossa proposta de Mestrado é esta (e que consta do respectivo Plano Curricular), que pretende fazer com isto ? Que expectativas tem ?
Tenho-me cruzado com bastantes jovens a fazerem Mestrados, e sobretudo em áreas de não muito fácil empregabilidade que, em ambiente descontraído, me relatam nunca terem pensado nisto e que “ainda estão a frequentar as aulas do Mestrado, depois logo se vê”. Mas até ali ninguém da Instituição teve qualquer conversa com eles.
Fico preocupado ! Parece-me que algo está errado aqui e que as Instituições estão a lidar com isto com demasiada leviandade e sinto os estudantes com pouca proactividade a encarar o assunto. É o seu futuro que está em causa ! E acredito que não faltam questões/problemas/desafios/projectos sobre os quais se debruçarem (em entidades com ou sem fins lucrativos), a questão é se a seguir o percurso de Mestrado está aberto à indispensável flexibilidade para responder a isso, ou se é demasiado rígido e não potencia ou mesmo não permite qualquer adaptação que se revele pertinente e/ou necessárias.
Penso que já lá vai o tempo em que um Mestrado, e um Doutoramento ainda pior, resultava numa bonita brochura para a gaveta, mas que se ficam pelo conhecimento, mas não criam algo de útil para ninguém, algo que responda a um problema ou a um desafio, ou que crie um produto ou serviço novo para colocar no mercado ou para melhorar algum outro que já exista. Além de não constituir um reforço efectivo na empregabilidade do candidato ou dar algum passo para a preparar.
Tenho ouvido muitos relatos em que demasiados Mestrados estão longe de cumprir esta função. Estarão as instituições a abandonar os seus mestrandos ?
Pela minha parte, sinto que muito precisa de ser feito nesta área, em nome da maior empregabilidade da nossa gente jovem. Os relatos que tenho ouvido e as conversas que vou tendo não vão neste sentido.
Pela minha parte, não me detenho muito tempo no problema, que encaro como um desafio. Tenho ideias de como colocar isto no terreno, apoiando desde logo os jovens nos mestrados, que são a parte mais fraca.

Licenciado em Gestão














