Lembrei-me de recordar a governação de George Bush nos EUA (de Janeiro de 2001 a Janeiro de 2009 antes de dar lugar a Barack Obama). Foi o tempo em que os americanos decidiram invadir o Iraque, evocando como razão as armas altamente letais que o árabe laico Saddam Hussein fabricaria aos molhos, às resmas e às paletes.
O curioso disto é terem sido precisamente os EUA a primeira e a única potência mundial (até ao momento em que escrevo… não sei o que vai acontecer amanhã) a usar bombas atómicas, destruindo cidades e matando, de uma só vez, 140 mil pessoas em Hiroshima (Japão) em Agosto de 1945, repetindo a mortandade dias depois, em Nagasaki, matando mais 36 mil… conduzindo o Japão à rendição incondicional perante a demonstração que os EUA fizeram de poderem destruir mais equipamentos e matar mais gente civil e anónima, em menos tempo…
58 anos depois de Hiroshima, em 2003, a invasão do Iraque promovida por George Bush, tresandou a ilegalidade internacional, e merece um esboço histórico como exemplo ilustrativo que fui buscar bem longe das terras mesopotâmicas. Ora vejam lá esta investigação feita por quem está reformado e em férias, não tendo nada mais para fazer nem pensar:
Na ilha de Cuba havia, desde 1895, um movimento independentista que lutava pela separação de Cuba da Espanha colonizadora. Em 1898 os EUA apoiaram os insurrectos, entrando em guerra com Espanha, com o fim camuflado de passarem a ser eles próprios os donos de Cuba que, só em turismo, música e industria do sexo, rendia que nem vários poços de petróleo! Foi assim que na década de 1950 era presidente de Cuba o general Fulgêncio Batista que havia sido colocado no poder pelos EUA em 1933. O ditador Batista não era bem visto pela maioria dos cubanos… o que é normal acontecer aos ditadores. Por isso o povo organizou-se iniciando uma luta armada chefiada por Fidel Castro, com Che Guevara; e o delfim dos seteites acabou por ser derrubado em 1959.
Ora bem… era aqui que eu queria chegar, para dizer que é este o esquema natural do legítimo derrube de um regime político: insatisfação popular e guerrilha urbana (ou golpe de Estado pela acção das Forças Armadas do próprio país, como aconteceu connosco em 25 de Abril de 1974). No Iraque não foi assim. O ditador Saddam Hussein, embora merecedor de uma queda violenta, prisão e julgamento (assim o povo entendesse e actuasse em conformidade, se pudesse!…), não foi derrubado pela insatisfação popular, mas pela invasão militar do Iraque pelos EUA, com o apoio da Espanha de José Maria Aznar, da Inglaterra de Tony Blair e com a mordomia de Durão Barroso por parte de Portugal, que serviu acepipes, queijinho das ilhas e copos de vinho tinto, aos três, no Arquipélago dos Açores, onde os quatro combinaram a maldade que fariam a Saddam, que queria ocupar o Kuwait.
A invasão do Iraque foi praticada sob o pretexto de por ali haver terríveis bombas químicas, o que representava um perigo para o mundo! E, como se sabe, os americanos são os gajos mais bem comportados do universo e os salvadores do mundo e arredores, como que se nunca tivessem usado bombas atómicas nas suas exemplaríssimas vidas, e apoiassem a prática do bem sobre todas as maldades deste mundo… como hoje se constata no apoio que dão a Netanyahu e a Putin!…
Depois de Saddam preso, o Iraque destruído, milhares de vidas ceifadas, e centenas de prisioneiros árabes sem culpa formada e torturados pelos soldados americanos, os invasores não encontraram nem um grãozinho de pó das terríveis armas letais que serviram de pretexto para a invasão do Iraque que Durão Barroso (o porquinho-mealheiro da Goldman Sachs) tanto defendeu quando foi primeiro-ministro cá do reino! É que não acharam, nem sequer, uma latinha de mata-ratos para poderem justificar a existência de armas químicas letais, porra!… Mas, mesmo assim, ficaram todos muito orgulhosos de terem destruído o Iraque e matado muita gente… e nenhum deles foi preso!…

(É preciso dizer-se que a desconfiança de poder haver por ali armas químicas, embora não fosse provada, tinha uma razão. Baseava-se no facto de Saddam Hussein já ter usado tais armas em Março de 1988, na cidade curda de Halabja, no Curdistão. O ataque matou entre 3500 e 5000 pessoas [entre elas muitas mulheres e crianças] e foi considerado genocídio pelo Alto Tribunal Penal Iraquiano em 1 de Março de 2010. O Canadá considerou o mesmo ataque como crime contra a Humanidade)
Pelo caminho os marines de Bush deixaram que a turba enfurecida assaltasse o museu de Bagdad, vandalizando, roubando e destruindo um património histórico único que contava a História da Civilização. Mas protegeram poços de petróleo!… Para Bush tinha imensamente mais valor uma nódoa de petróleo no peito da camisa, do que um fragmento de argila com escrita cuneiforme contando a epopeia de Gilgamesh… (e hoje, para Trump, também. Valem mais as terras raras da Ucrânia do que a liberdade dos ucranianos e as placas com escrita cuneiforme… o que ele nem sonha o que seja… nem as placas, nem a liberdade!). Estava decretado pelos aliados da invasão que só era importante para o mundo o que era importante para o semi-analfabeto e ex-alcoólico Bush filho (parece ser recorrente os EUA terem gente mal-comportada e mal-formada na Casa Branca a mandar no mundo).
Este acto de “brincar aos soldadinhos” com que os políticos se entretêm nos seus gabinetes, criando guerras e enviando gente para as manter, tem resultados sempre extremamente dramáticos. No Iraque estima-se que morreram cerca de 7 mil civis e mais 3 mil soldados. Pelo lado da coligação ocidental morreram cerca de 200 soldados americanos e britânicos que deviam estar em casa junto das suas famílias e namoradas.
Os verdadeiros autores das guerras nunca morrem nelas… mandam morrer os outros…
Citei o mau exemplo dos seteites e a história da revolução cubana, apenas para referir que nenhum povo recebeu, em tempo algum, a democracia entregue de bandeja sem ter lutado por ela. E muito menos a recebeu gratuitamente das mãos de uma potência estrangeira. E referi a revolução cubana porque me foi gravada na mente, enquanto jovem, a luta dos cubanos pela Sagrada Liberdade, que a imprensa portuguesa escamoteava, submetida a uma ditadura que censurava os jornais impedindo uma informação completa à população, como ainda fazem hoje os ditadores Putin e Netanyahu nos seus países, e também faz Trump, maltratando a imprensa americana que não o apoia.
Cresci com a imagem dos grandes heróis da revolução sul-americana: Fidel Castro e Che Guevara. Heróis que restituíram a ilha de Cuba aos cubanos, retirando-a a Fulgêncio Batista, o lacaio dos EUA. Che foi preso e morto numa selva da Bolívia em Outubro de 1967, quando eu tinha 23 anos e cumpria serviço militar em Angola. A sua imagem passou para o mundo como um revolucionário romântico. Quando se morre jovem e em luta por um ideal, fica uma aura quase mística na recordação daquela personagem, cuja imagem cristalizou no tempo tal como era quando morreu. É assim que gostamos de o recordar e é assim que Che Guevara merece ser recordado… (embora ele próprio não gostasse de saber que hoje fazem da sua figura uma marca decorativa de t-shirts como se fosse um produto idêntico à Coca-Cola!…).

Já Fidel Castro… porque viveu até aos 90 anos e exerceu a função de chefe de Estado ditatorialmente (tal como a exercera Fulgêncio Batista que ele apeou do poder por isso mesmo…) por mais de seis décadas, teve imenso tempo para destruir a aura da sua juventude revolucionária… e de fazer cagáda da grossa!…
A revolução cubana foi necessária e cumpriu a missão libertadora que o povo reclamava, mas deixou-se atropelar pelo tempo. Parece ser isso mesmo o que acontece às revoluções que encalham em si próprias. Em consequência, quase sete décadas depois do derrube de Fulgêncio Batista, os cubanos não estão tão satisfeitos como estavam quando Fidel e Che os libertaram “daquele ditador” (digo “daquele” porque depois tiveram outro: o próprio Fidel).
Eu não sei fazer revoluções. Não conheço os ingredientes para bem confeccionar um acto revolucionário com a certeza de conseguir uma excelente digestão. Mas sei como é bom estar vivo, ter liberdade de movimentos, de expressão e de acção, poder sair do país quando quiser e falar à vontade, nem que seja só para dizer disparates, sem medo de ser preso ou morto por isso. Defendo as revoluções que nos libertam de ditaduras, sejam elas de Direita ou de Esquerda, e por isso louvo o 25 de Abril (cuja revolução, mesmo assim, assistiu à prisão de Otelo Saraiva de Carvalho, o seu principal promotor, obreiro, estratega e comandante) que nos restituiu a Liberdade que Salazar cancelou em 1933. (Também é verdade que as expectativas sociais propaladas na Revolução dos Cravos, jamais foram concretizadas para além do que, então, foi considerado “essencial” pelo 25 de Novembro: a entrega do poder à sociedade civil, num regime democrático e livre aberto a todos, inclusive aos inimigos da Democracia).
Em consequência desta “abertura democrática sem livro de instruções”, agora há por aí uns “mafarricos” que falam em restaurar a pena de morte que Portugal aboliu em 1852 para crimes políticos e em 1867 para crimes civis. (Fomos o primeiro Estado soberano da Europa a abolir a pena de morte… o que conta a favor do nosso sentido Humanista, o qual, os extremistas de Direita desejosos de tomarem o poder, nem imaginam o que seja… são iguaizinhos ao ditador Trump que se imagina defensor da Democracia, que prende imigrantes, que apoia a pena de morte, que manda o exército “controlar” cidades cujos habitantes não votaram nele, que defende a morte dos palestinos às mãos dos israelitas, que deseja entregar a Ucrânia ao invasor Putin… e que quer receber o Prémio Nobel da Paz!…).
A pena capital é contestada em todo o mundo, mas é praticada em 87 países. Cuba é um deles, que a aplica, dizem eles, “em casos muito especiais”. A última execução aconteceu em 2003, mas em 1999 foram fuzilados mais de 20 condenados à morte. Se alguns deles foram executados por terem cometido assassínio (olho-por-olho, dente-por-dente), outros ganharam o fuzilamento apenas por não gostarem de viver em ditadura e terem tentado sair de Cuba!
Estou a lembrar-me de um caso noticiado exactamente na década de 1990. Nele se contava a infausta história de um homem que queria sair da ilha mas estava impedido de o fazer legalmente, de acordo com a “legalidade da ditadura”. Farto do regime castrista que o impedia de ser o homem que era e que queria continuar a ser – podendo sair e entrar na ilha quando lhe apetecesse – tentou várias vezes a fuga ilegal… e foi capturado.
Fugir de uma ilha é difícil por não se tratar de atravessar uma fronteira… é preciso sulcar o oceano. Pela última vez aquele homem que sonhava ser livre, construiu mais uma jangada aproveitando um automóvel antigo transformado em barco (foram várias as tentativas de fuga [e algumas conseguidas] usando o mesmo processo) e navegou em direcção à Flórida. O empreendedor cubano iniciava mais uma tentativa de fuga (penso que a terceira)… e tornou a ser apanhado pela guarda costeira cubana.
Dessa vez foi julgado por “traição”, e o próprio Fidel presidiu ao acto, precisado que estava de se reafirmar o dono daquilo tudo (como também se afirmava Fulgêncio Batista), procurando desmotivar quem ousasse fugir do país, e ditou um “veredicto exemplar” para aquele homem que sonhava ser livre: o fuzilamento. O tiro que tirou a vida daquele amante da liberdade, também matou a admiração que, até aí, eu nutria por Fidel. Com aquele herói cubano morto e enterrado pela ditadura… também eu enterrei Fidel Castro…
A ideia de matar gente, arrepia-me… e a sua concretização, desfaz-me.
Cuba tem um excelente serviço de saúde reconhecido por todo o mundo. Tem educação gratuita para toda a gente. Médicos cubanos trabalham solidariamente em todo o mundo e oferecem parte dos seus ordenados ao governo de Cuba para ajudarem na despesa da formação de novos médicos. O Povo cubano é gente de primeira qualidade (começando pelo meu amigo cartunista Tomy, a quem dei boleia a partir de Madrid e servi de cicerone no Porto). O engenho e a arte que conseguiram na recuperação da frota automóvel depois do boicote vergonhoso de todo o mundo (com excepção da Rússia) à importação de peças, transformou o parque automóvel cubano num museu-vivo dos anos 50. O mesmo acontece com a arquitectura. A música e a alegria dos cubanos é o cartão de visita daquele povo de estatura maior quando comparado com o espírito tacanho dos políticos mundiais que pretendem sufocá-lo.
Perante esta positividade de tão excelso povo, eu pergunto se Cuba não pode continuar a ser tudo isto e, ao mesmo tempo, respeitar as liberdades individuais dos seus cidadãos que é o que todos nós – e em todo o mundo – desejamos?!…
É difícil?… É impossível?…
Cuba tem de, obrigatoriamente, continuar a ser uma ditadura?!…
Não pode transformar-se numa Democracia plena como é a nossa, mas provida de “um livro de instruções perduráveis” para não permitir a existência de “mafarricos” como aqueles que nós temos de aturar por não termos precavido a nossa Democracia com uma “lei fundamental” intocável que os impeça de chegarem ao poder?!…
Jornalista/Cartunista







