VI – Palavras que aquecem o coração
O inverno parecia tornar tudo mais lento, mais introspetivo.
Marta trouxe da gaveta uma caixa de cartões em branco, envelopes coloridos, e sentou-se à mesa. Tomás aproximou-se, curioso. O calor da sala contrastava com os flocos de neve que batiam lentamente nas vidraças.
“Para quem são?” – perguntou ele.
“Para pessoas que queremos lembrar” – respondeu Marta, pegando numa caneta. “Às vezes, as palavras não dizem tudo. Às vezes, precisamos de escrever.”
Tomás escolheu um cartão e começou a rabiscar linhas tortas com o lápis que Marta lhe entregara. Não eram palavras perfeitas, mas cada traço carregava cuidado e intenção.
“Podemos escrever para o avô e a avó?” – perguntou ele.
“Podemos e também para aqueles que estão longe, mas que queremos sentir perto.”
Enquanto escreviam, a neve caía lá fora num silêncio branco. O inverno parecia concentrar tudo no interior: os gestos, as palavras e o calor humano que se recusava a ser afetado pelo frio.
Tomás levantou os olhos do cartão e perguntou: “Achas que eles vão gostar?”
“Não importa” – disse Marta. – “O que importa é que recebam um pouco do calor que sentimos agora. Um pouco de nós.”
E assim, naquele dia de inverno, pequenas mensagens foram escritas e guardadas em envelopes. Cada uma levava consigo o rasto da estação: a introspeção, o silêncio, a atenção ao que realmente importa. O inverno ensinava-lhes que ligação e presença podem existir mesmo na distância, mesmo no frio, e que gestos simples têm uma força que o tempo não apaga.
Quando colocaram os envelopes na caixa pronta para envio, Tomás sorriu. “Escrever é como acender uma luz no inverno.”
Marta apertou-lhe a mão, concordando em silêncio.
O inverno podia ser frio, às vezes solitário, mas também podia ser capaz de aquecer os corações.
O que escrevemos, mesmo que fugaz, pode permanecer no coração de quem recebe.
Continua
Professora e Escritora







