Depois da música feita de músicos para músicos – o Be Bop, recheada de melodias e arpejos escarpados e de harmonias densas e pulsantes, chegou a calma e a tranquilidade do Cool dos anos 50. A surdina de Miles Davis, as influências de Ravel, Stravinsky e Debussy, Dave Brubeck a cinco tempos, Gil Evans, Lee Konitz e Gerry Mulligan, trouxeram uma nova forma de sentir e de interpretar o jazz.

A reacção foi dada, passada uma década, por Ornete Coleman com o Free dos anos 60 e aí o jazz voltou a estar na linha da frente, estética, política e culturalmente.
O Cool e o Hard Bop: os anos 50 do Jazz
A história do jazz evoluiu por décadas, daí que a seguir ao swing dos anos 30 e ao Bebop dos anos 40, se seguisse o Cool nos anos 50. Este termo “Cool”, foi baptizado pelos críticos e por algumas companhias discográficas, uma forma mais macia de se tocar jaz, um pouco o “Light” jazz da altura.
Com uma grande influência da música erudita (Stravinsky e Debussy), a qual foi apelidada de “third-stream music”, a parte composicional teve um destaque maior do que no estilo anterior e surgiram novos instrumentos, como: o oboé, o corne inglês, a trompa, a tuba, a flauta e o violoncelo, acrescentando novas sonoridades ao qual se juntou o fliscorne (flugelhorn), um parente mais grave e mais macio da trompete, instrumento utilizado para transmitir uma sonoridade menos agressiva.
Aos arranjos mais elaborados, juntava-se uma nova utilização de diferentes compassos, desde o 3/4 ao 5/4 que Dave Brubeck adaptou para o seu tema mais conhecido, “Take Five”.

As formações tornaram-se um pouco maiores, sextetos, octetos e nonetos, dominavam esta sonoridade. O grupo de Miles Davis, em Janeiro de 1949, gravou esse disco histórico para o jazz e um dos mais importantes para definir este estilo, “Birth of The Cool”. Ao trombonista Kai Winding, ao saxofonista barítono Gerry Mulligan e ao saxofonista alto Lee Konitz, juntaram-se Bill Barber (tuba) e Junior Collins (trompa). Mulligan que juntamente com Gil Evans criaram um pequeno grupo, a partir da “Thornhill’s Band”. Abriram caminho ao grupo de Lennie Tristano, com Konitz e Warne Marsh. Na “West Coast”, Dave Brubeck fundou o seu quarteto com a sonoridade apurada de Paul Desmond, enquanto Mulligan e Chet Baker formaram um quarteto sem piano.
Criando assim uma escola com maioria branca, conseguiram a adesão de Miles Davis e John Lewis, o que, em certa parte, creditou este estilo junto das hostes negras mais radicais. O grupo de Lewis, “Modern Jazz Quartet”, com Milt Jackson no vibrafone, consegui criar sonoridades que nos fazem lembrar alguma música barroca.
O grupo de negros que não pactuava com este estilo adocicado de tocar jazz, colocaram Art Blackey à cabeça, numa forma mais dura de tocar jazz, como indica bem o nome do grupo de Blackey, “Jazz Messengers”. Charles Mingus veio juntar-se a esta nova forma de sonoridade negra, o Hard Bop.

John Coltrane trouxe uma nova identidade à improvisação pela forma como utilizava os encadeamentos harmónicos e como os alterava. A sua capacidade técnica e a sua tremenda sonoridade deram solos insuperáveis no novo caminho do jazz. O tema “Giants Steps”, é um tema completamente inovador, não só pelo encadeamento harmónico fora do vulgar, como pela velocidade que é normalmente interpretado, sendo um dos temas colocados nos exames finais de improvisação do jazz. Sonny Rollins foi outro saxofonista que criou raízes pela sua postura e a sua insistente procura, fez dele uma marca própria na história do jazz.
As cartas estavam lançadas até à próxima rotura com o sistema, o Free Jazz dos anos 60.
Free Jazz, Rock Jazz e ECM : o Jazz dos Anos 60 até aos nossos dias
Uma das principais metas do Free Jazz foi a luta do povo negro em relação à descriminação e à desigualdade. Farto de ser copiado através dos tempos, tentou criar uma música de difícil assimilação onde o afastamento das formas tradicionais, das estruturas harmónicas, das tonalidades, em prol de uma mistura de guinchos, grunhidos, gemidos e lamentos, deu uma total liberdade ao factor político que assumiu uma importância vital.
O slogan que virou nome de livro – Free Jazz Black Power, é bem exemplo do que acabo de escrever.
A dependência de certas drogas e um excesso de exploração laboral, destruiu as carreiras de alguns músicos, C.Parker, R.Rodney, C.Baker e F.Navarro. A outros músicos, onde a interferência foi mais leve, o dano foi mais equilibrado, Sonny Rollins, Stan Getz, John Coltrane e Miles Davis. Miles e Coltrane trouxeram um certo ar fresco com as estruturas modais, enquanto Tristano e Mingus fizeram as primeiras experiências e as primeiras abordagens a uma liberdade contextual próxima do Free.
Os impressionistas franceses, Stravinsky e Dave Brubeck, foram os alicerces da escola do pianista Cecil Taylor. As suas actuações ao lado de Steve Lacy no Five Spot, nos finais dos anos 50, e o seu contacto com escritores, artistas e performers, no clube de Nova York, enraizaram a sua técnica mais percutida e a sua busca de novas e vibrantes sonoridades.

Vindo de Los Angeles com o seu quarteto, Ornette Coleman tornou-se um inovador pela forma como estruturava o grupo sem instrumento harmónico (Piano/Guitarra) e as novas abordagens na improvisação. Don Cherry, John Lewis e Gunther Schuller, alguns dos seus companheiros de estrada, viram nessa música uma nova forma de libertação e um estilo diferente de abordarem o Mundo.
A este movimento de “The New Thing”, “Avant-Garde Jazz” ou “Free Jazz”, juntaram-se Archie Sheep, Sunny Murray, Donald Ayler, Roswell Rudd e Albert Ayler.
Na continuação deste movimento é fundada por Muhal Richard Abrams, a Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), em 1965.
É no seio desta associação que aparecem músicos como: Anthony Braxton, Lester Bowie, Leroy Jenkins e o grupo, Art Ensemble of Chicago. Mais tarde, a mística de Sun Ra, a sua música, a sua orquestra, e o seu espectáculo visual, são de todo contagiantes.
Um dos discos mais marcantes e importantes deste movimento tem o seu nome – Free Jazz. Neste disco (Atlantic 781347) Ornette Coleman reúne dois quartetos ao mesmo tempo. Don Cherry e Freddie Hubbard (trompetes), Eric Dolphy (clarinete baixo) e o próprio Ornette (sax alto), Charlie Haden e Scott LaFaro (contrabaixos) e Ed Blackwell e Billy Higgins (baterias).
O Rock e o amigo (Jazz)
Um dos maiores impactos que se deu no jazz entre os anos 60 e 70, foi a influência dos músicos de rock e consequentemente os instrumentos eléctricos. Miles, sempre ele, com o trabalho de 1968 “Filles De Kilimanjaro”, com Chick Corea no piano eléctrico, dá o pontapé de saída para uma fase eléctrica, onde mais tarde a seu trompete também será electrificado. Mas é com o trabalho “Bitches Brew” de 1969, onde uma batida de rock serve de suporte a uma ambiência electrónica, libertando o jazz para os solos, que se dá a verdadeira mudança.
Se há um grupo representativo da magia da sonoridade eléctrica com o som acústico, e as influências das outras músicas, esse grupo chama-se “Weather Report”, fundado por Joe Zawinul e Wayne Shorter. O tema “Birdland”, do disco “Black Market”, é sem dúvida um standard da época moderna. Destaco o trabalho de 73/74 “Mysterious Traveller”.

Chick Corea com o seu “Return To Forever” de 1972 e Herbie Hancock com os “Head Hunters”, de 1973, deram um novo espaço, ao ritmos latinos e a uma batida funky emergente.
ECM, a resposta da Europa
Esta companhia de discos fundada em Colónia, na Alemanha, pelo baixista Manfred Eicher, fez a ponte do Free para a sua sonoridade – ECM. Vários artistas viram os seus trabalhos a solo ou em grupo numa estética europeia. Paul Bley, Jan Garbarek, Marion Brown, Egberto Gismonti, Keith Jarrett, Terje Rypdal e Eberhard Weber, são alguns dos artistas representantes deste estética musical, adequada à captação especial do som e das ambiências sonoras.

Nos anos 80 e 90 alguns temas de Jazz (Acid Jazz), têm sido recuperados sobre um groove e um MC em Rap, transformando-os em música de dança, voltando a dar ao jazz aquela mística que arrebata e volta a arrebatar os corpos para a dança.
Músico/Colaborador














