No fim da manhã de ontem, 28 de abril de 2025, o relógio parou por instantes em Portugal e Espanha. Literalmente. Um apagão colossal — o maior de que há registo na Península Ibérica — cujo resultado saldou-se em milhões de cidadãos em escuridão súbita e silêncio elétrico. Durante horas, as infraestruturas críticas foram reduzidas a operações mínimas, os geradores gemeram em hospitais, os aeroportos fecharam, os comboios pararam, e a população, essa foi deixada literalmente às cegas — não só pela falha de energia, mas sobretudo pela ausência de liderança.
E foi aí que o verdadeiro apagão acabou por se revelar: não na rede elétrica, mas na rede política, que supostamente devia garantir que um colapso desta magnitude nunca acontecesse.
O primeiro-ministro português, Luís Montenegro, convoca de imediato uma reunião de emergência, uma daquelas encenações apressadas e sem substância, onde o mais importante foi o lavar as mãos o mais depressa possível. Aponta o dedo a Espanha, e insinua uma origem externa para a ocorrência da falha. Mais do que uma resposta, foi um reflexo: o piloto automático de um político habituado a fugir à responsabilidade como o diabo foge da luz.
Do outro lado da fronteira, Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol, também reune os seus ministros para prometer “investigações exaustivas” — a típica expressão que serve apenas para adiar o inevitável: ninguém será culpado, ninguém será demitido e nada vai mudar.
Mas há responsabilidades concretas. A Rede Eléctrica de Espanha confirma que cerca de 15 gigawatts voaram abruptamente da rede, levando à interrupção massiva. A dependência crescente de fontes renováveis, sem um reforço equivalente da infraestrutura de suporte e de interligação ibérica, mostrou-se um risco que há muito vem sendo anunciado e sistematicamente ignorado. A falta de redundância, de simulações de emergência, de um plano coordenado, é injustificável.
Mas, pior do que a falha técnica, no entanto, foi o teatro político que se seguiu. Montenegro e Sánchez desfilaram diante das câmaras como dois generais de batalhas perdidas que ainda tentam parecer que estão no controlo. Os ministros da energia, Maria da Graça Carvalho (Portugal) e Teresa Ribera (Espanha), limitaram-se a repetir terríveis e chatos mantras técnicos e clichés vazios sobre resiliência e avaliação de riscos. Enquanto isso, milhões de cidadãos viram os seus dias arruinados, os seus negócios interrompidos, os seus serviços suspensos — tudo porque um sistema supostamente moderno não aguentou uma oscilação na rede.
O mais triste — ou o que mais revolta — é que já ninguém se surpreende. A classe política ibérica está tão habituada a falhar, e nós tão habituados a vê-la falhar sem consequências, que já nem chamamos isto de crise. Chamamos de rotina. O apagão foi apenas a metáfora perfeita de dois países geridos por elites políticas tão escuras quanto as ruas que deixaram sem luz.
É preciso mais que comissões de inquérito. É preciso responsabilidade, investimento na infraestrutura energética, e uma substituição radical desta cultura política que está especialista em sobreviver enquanto tudo colapsa à sua volta. Porque da próxima vez — e haverá próxima vez — talvez o apagão dure mais.
Talvez custe vidas. E talvez nem os geradores aguentem.
Mas não digam que não têm escolha. As eleições aproximam-se, e com elas a ilusão renovada de que o voto muda alguma coisa. Pode ser que desta vez o povo, esse mesmo que ficou a carregar os telemóveis no carro e num jantar romântico à luz das velas, tenha um rasgo de juízo. Caso contrário, comecem a investir nos candeeiros a petróleo e no carvão para aquecer a sopa — porque a escuridão, essa, não é só elétrica
Engenheiro/Colaborador














