Anos 60 e O Último Verão do Analógico

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Era um tempo em que a vida não cabia num bolso. Um tempo em que esperar não era uma falha do sistema, mas parte do seu encanto. Antes do mundo se tornar um fluxo contínuo de notificações, vivíamos num ritmo mais lento, mais tátil, mais humano. Recordar esse tempo não é nostalgia barata — é um ato de resistência.


Havia um silêncio entre as coisas. Não o silêncio vazio de quem nada tem a dizer, mas o silêncio fértil da espera. Antes do mundo caber num retângulo de vidro iluminado, a vida tinha peso, sabores, texturas e, acima de tudo, demora. Viver, antes da Internet, era habitar o tempo cronológico, não o tempo do scroll infinito.


Lembro-me das bibliotecas não como repositórios de dados, mas como catedrais de paciência. Não havia uma barra de pesquisa para cuspir mil respostas em 0,3 segundos. Havia o fichário de madeira, o cheiro a papel envelhecido e a poeira a dançar nos raios de sol que entravam pelas janelas altas. Para encontrar uma resposta, era preciso caminhar entre corredores, tocar nas lombadas dos livros, perder-se para depois encontrar-se. Walter Benjamin, ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão, no seu ensaio sobre a obra de arte, falava da “aura” — aquele aqui e agora único do objeto, a sua existência no lugar em que se encontra. Ao digitalizar o conhecimento, ganhámos acesso, mas perdemos a aura do saber. O livro era um encontro; a hiperligação é apenas um atalho.


A fotografia era um ato de fé. Carregávamos rolos de 24 ou 36 poses como quem transporta um tesouro limitado. Cada clique era uma decisão ponderada, não um impulso descartável. Não havia ecrã para verificar se a imagem estava perfeita, não havia delete para apagar o erro. Havia a espera — dias, por vezes semanas — até ir buscar as fotografias à loja. E quando finalmente abríamos aquele envelope amarelo, havia magia: algumas imagens saíam melhor do que imaginávamos, outras eram desastres engraçados, todas eram irrepetíveis. O erro fazia parte da poesia. Hoje, tiramos centenas de fotografias do mesmo pôr do sol e apagamos as que não ficam perfeitas. Ganhamos o controlo, perdemos o mistério.


A televisão era um compromisso. Havia três canais e ponto final. Não se escolhia o que ver a qualquer hora; ajustávamos a nossa vida à grelha de programação. As famílias reuniam-se à hora do jantar para ver o telejornal, discutia-se as notícias na sala, não nas redes sociais. Havia noites específicas para a comédia, para o drama, para o futebol. Perder um episódio significava perdê-lo para sempre — não havia streaming, não havia reposição infinita. Essa escassez dava valor ao momento. E os intervalos publicitários? Eram pausas obrigatórias para ir à casa de banho, fazer um chá, conversar. Hoje, a televisão é um buffet livre e solitário, onde cada um vê o que quer, quando quer, sozinho no seu ecrã. Ganhamos a conveniência, perdemos o ritual.


A música não era um streaming invisível que nos persegue como uma sombra sonora. A música comprava-se, pesava-se, guardava-se. Havia o ritual de tirar o vinil da capa, limpar o pó com um pano de flanela e baixar a agulha com a precisão de um cirurgião. Havia o risco da estática, o estalido antes do primeiro acorde. Lia-se as letras enquanto se ouvia, estudava-se as capas como obras de arte. E a dança… Ah, a dança. Dançávamos sem a necessidade de registar o momento para provar que lá tínhamos estado. O corpo movia-se no escuro das discotecas, iluminado apenas por luzes estroboscópicas, sem ecrãs a gravar histórias para espetadores futuros. Vivíamos o instante, não a sua representação.


Nas conversas, o olhar era a única notificação. Sentávamo-nos em salas, varandas ou bancos de jardim e o tédio era permitido. Blaise Pascal, o matemático, escritor e filósofo, no século XVII, já alertava que «toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa: não saberem ficar tranquilos num quarto». Antes, sabíamos. O tédio era o útero da criatividade. Esperávamos pelo telefone fixo no corredor, partilhado por toda a família, sem a ansiedade da resposta imediata. A ausência do outro era respeitada; não estávamos disponíveis 24 horas por dia. Éramos, por vezes, inacessíveis, e nesse mistério residiam o desejo e o respeito.


As cartas eram artefactos de paciência. Escrevia-se com caneta de tinta permanente ou esferográfica, raspava-se quando se errava, dobrava-se o papel com cuidado, selava-se o envelope com a língua ou cola, ia-se aos correios esperar na fila. E depois, a espera — dias, semanas, às vezes meses se fosse para o estrangeiro. Uma carta era um objeto físico que se podia guardar numa caixa, reler anos depois, cheirar ainda o perfume de quem a escreveu. O email chegou, foi rápido, eficiente, gratuito. Mas quantos emails guardamos? Quantos relermos daqui a vinte anos? Ganhamos a velocidade, perdemos a tangibilidade.


O que se perdeu, especificamente depois do furacão cultural dos anos 60? Os anos 60 foram o último suspiro de uma utopia coletiva, física, de corpos na rua e vozes em coro. Depois disso, começou a aceleração. A revolução tecnológica, que prometia libertar-nos do trabalho, acabou por nos aprisionar à eficiência. O que se perdeu foi a ritualização do quotidiano. A vida tornou-se líquida, como diria Bauman, mas tornou-se também transparente.


O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han argumenta que vivemos numa «sociedade da transparência», em que tudo tem de ser exposto, partilhado e validado. Antes, tínhamos sombras. Tínhamos segredos guardados em diários com chave, cartas em envelopes selados, conversas que morriam no ar da sala sem deixarem rasto digital. A privacidade era um muro que protegia a intimidade; hoje, é vista como suspeita. Perdemos a capacidade de estar sós sem nos sentirmos solitários, porque a ligação constante confunde presença com conexão.


Claro, não se trata de um ludismo cego. A medicina avançou, a informação democratizou-se, as distâncias encurtaram. Mas pagámos um preço alto na moeda da atenção. Trocámos a profundidade pela largura de banda. Trocámos a espera, que dava valor às coisas, pela instantaneidade, que as torna descartáveis.


Recuperar algo desse mundo não significa atirar o telemóvel ao lixo. Significa, talvez, reintroduzir o silêncio. Significa ir à biblioteca tocar nos livros, mesmo que não os levemos. Significa ouvir um álbum do princípio ao fim, sem saltar faixas. Significa olhar nos olhos de quem fala connosco, sem verificar se a mensagem chegou. Significa, de vez em quando, carregar um rolo fotográfico e esperar pela surpresa. Significa reunir a família à hora de jantar, sem ecrãs à mesa.


Viver antes era habitar o mundo. Viver depois é, muitas vezes, navegar numa interface dele. Que possamos, de vez em quando, fazer logout da realidade aumentada e voltar a sentir o peso, o cheiro e o silêncio das coisas reais. Porque é no intervalo, no espaço entre uma notificação e outra, que a vida, afinal, acontece. E talvez seja aí, nesse silêncio recuperado, que possamos reencontrar não só o passado, mas também um futuro mais humano.


Esta crónica foi escrita num computador, mas sonhada numa máquina de escrever.

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