No decorrer da Origincon, mostra de cultura pop, realizada no passado fim de semana no pavilhão Multiusos de Gondomar, O Cidadão presenciou a apresentação de “O Pacto”, o romance de Nuno Gonçalves, vencedor do Prémio António de Macedo em 2022, que coloca o leitor face a um dilema moral difícil de ignorar.

A história de “O Pacto” segue Amadeu, um oncologista pediátrico, que ao receber o poder de curar qualquer doença, tem de lidar com a pesada contrapartida de uma vida a ser tirada para cada alma que salva. O dilema de Amadeu é claro: salvar ou não, sabendo que a morte está à sua porta a cada vez que decide agir. Em entrevista, Nuno Gonçalves detalha o processo criativo por trás da obra e as escolhas que moldaram a sua narrativa.
“Como sou oftalmologista, tenho poucas oportunidades de salvar vidas e de matar pessoas”, começa Gonçalves com um sorriso, refletindo sobre a sua própria profissão. A escolha de fazer do protagonista um médico, explica, foi um movimento pragmático, mas também artístico: “A ideia de o personagem ser médico, não foi tanto ser autobiográfico, foi porque era mais fácil para mim, não tinha de fazer tanta pesquisa e tinha pouco tempo para escrever o livro, quando comecei a escrevê-lo. E também achei que era mais interessante para o dilema dele.”
Através de Amadeu, Nuno Gonçalves propõe uma reflexão sobre os limites da moralidade e da ética quando se tem o poder de alterar o destino das pessoas. No entanto, o autor evita cair em simplismos, preferindo explorar a complexidade humana do seu protagonista: “A partir do momento em que tenho o poder de curar qualquer pessoa, podia simplesmente ignorá-lo e levar uma vida sem me preocupar com isso. Mas como ele é oncologista pediátrico e vê crianças a morrer de cancro todos os dias, seria mais difícil ignorá-lo.”
A construção do personagem e da narrativa também levou Gonçalves a subverter expectativas. A personagem feminina, Suzane, não é apenas um elemento passivo da história, mas sim um contraponto ativo à personalidade de Amadeu. “A Suzane é mais levar tudo à frente. O Amadeu é mais passivo, as coisas vão acontecendo sem ele querer muito que aconteçam.” O autor revela que a construção desta relação entre os dois personagens foi baseada, sobretudo, na oposição de atitudes e não nas crenças: “A Suzane é mais virada para o lado místico, enquanto o Amadeu, mesmo estando envolvido num pacto com o Diabo, ainda assim não acredita propriamente em nada sobrenatural.”
No que diz respeito à construção do poder de Amadeu, a simplicidade da regra que rege a sua habilidade confere-lhe uma aura quase mítica. “Ele escolhe alguém que está doente, toca a pessoa, diz uma frase, ‘Filho da Manhã’, e a pessoa é curada, e ele depois tem sete dias para matar alguém, senão a cura é derretida”, explica. O também médico sublinha que a liberdade do protagonista é total no momento de decidir quem deve morrer, “ele pode matar como ele quiser, com as armas que quiser”, o que ele vê como uma metáfora para a arbitrariedade das decisões humanas, especialmente aquelas que envolvem vida e morte.
A escrita, revela o autor, não foi um processo fácil, e a forma como o livro foi produzido reflete a sua experiência de vida. “Entre o momento em que me sentei para escrever a primeira palavra até à última, foi menos de um mês”, conta, detalhando o esforço concentrado durante a sua licença de paternidade. “Mas já tinha dois meses de trabalho antes de planeamento, não tinha tempo propriamente para escrever, mas quando eu me sentei para escrever este livro já sabia tudo o que ia acontecer, quase de capítulo a capítulo.”
A narrativa é, sem dúvida, marcada por um ritmo rápido, típico de thrillers e obras de suspense. Nuno Gonçalves explica que o formato dos capítulos curtos foi intencional: “A ideia era criar um ritmo acelerado de leitura, tentando terminar cada capítulo de forma que o leitor tivesse vontade de continuar.” Essa técnica, que alterna entre passado e presente, entre personagens, aumenta a tensão, e faz o leitor querer saber mais, mesmo sem respostas imediatas.
Ao ser questionado sobre o uso de fórmulas e lugares-comuns, o autor reconhece que é impossível fugir às influências, mas tenta sempre dar uma volta criativa às mesmas. “Já foi tudo feito, e tentar dar-lhe uma volta um bocadinho inesperada.” No caso de “O Pacto”, o autor faz um uso consciente do mito de Fausto, mas não se limita a ele. “Eu queria que o leitor fosse surpreendido, que não soubesse o que ia acontecer a seguir.”
Ainda no que diz respeito à escrita, Nuno Gonçalves reconhece a necessidade de entender os próprios limites enquanto autor, mas também a importância de explorar outras realidades, como no caso das personagens femininas. Quando se discutiu o tratamento de Suzane, Gonçalves abordou a questão da escrita de personagens femininas por autores homens. “Eu acho que não devemos escrever só aquilo que conhecemos em primeira mão, senão não escrevemos mais nada que não fosse algo autobiográfico. A escrita de ficção é um exercício de imaginação.” No entanto, ele confessa que sempre teve algum receio em abordar personagens femininas de forma profunda, devido a questões de perceção pública e estereótipos.
“Eu acho que antigamente, quando a maior parte das obras publicadas eram publicadas por homens, os homens escreviam personagens femininas sem problema. Atualmente, não sei, achava que havia coisas que eu tinha medo de ser clichê ou ser preconceituoso”, disse o escritor, aludindo ao cuidado que deve ser tomado na construção de personagens que não se baseiem em estereótipos.
Ainda assim, o autor salienta que não deve haver restrições à imaginação do escritor: “Não devemos restringir as histórias à nossa personalidade da forma como é percebida pela sociedade.” Uma mensagem clara de que a literatura, na sua essência, deve ser um campo para a liberdade criativa e a empatia.
Quanto ao futuro da sua carreira literária, Nuno Gonçalves não descarta a possibilidade de um próximo livro, embora com personagens e uma história totalmente diferentes. “Não tenho ideia de uma sequela para estas personagens. Para mim, a história delas está contada. Mas tenho ideia para uma sequela diferente. Coisas que acontecem depois desta história, mas com outros personagens.” A conclusão da história de Amadeu e Suzane, embora um enigma para o leitor, parece ser, para Nuno Gonçalves, uma página virada.
Por fim, o autor admite que a escrita, apesar de ser uma paixão de longa data, nunca foi uma opção inicial. “A Medicina foi o caminho que escolhi, mas a literatura esteve sempre comigo. O prazer da leitura fez crescer a vontade de um dia ver as minhas palavras no papel.” E, como todos os grandes escritores, Nuno Gonçalves parece estar apenas a começar a explorar o seu potencial literário.
OC/RPC

Editor Adjunto, Eng. Eletrotécnico e Aluno da Licenciatura em Gestão do Património Cultural







