Coisas de Glória

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Sendo honesto, não sei por que me veio esta memória à ideia. Foi há quase vinte anos. Tínhamos ido correr para o parque da cidade. O prof. de e.f. impunha-nos o Teste de Cooper e pediu à colega de matemática que perdoasse o nosso atraso. Entre regressar, tomar um duche e comer, quinze minutos? Além do óbvio intervalo, claro. Eu não tomava duche algum¹ e correr, corria pouco – cedo descobrira que devagar se vai longe. Por isso, fiquei em último e ainda me julguei no direito de usufruir desse desconto. Ao qual somei meu habitual atraso.

Um atraso pontual? Nem mais nem menos que trinta minutos. Meia hora era quanto bastava para laurear a pevide e passar pelo bar dos profs. a comprar dois pastéis-de-nata. (Por razão desconhecida eram maiores do que no bar dos alunos.) Um comia, o outro levava à prof. que era gulosa e tudo perdoava.

Sendo justo, em relação a este episódio em concreto, admito o excesso. Havia passado uma hora, estávamos a meio do segundo tempo, e eu com uma nata em cada mão, roçando o puxador com o cotovelo, batendo à porta com os nós dos dedos, uma, duas, três vezes com o joelho, cinco ao pontapé, até que… Silêncio. Calou-se a turma. Calou-se a prof.? Calaram-se todos? Mas Tito, em tom de gozo, a plenos pulmões: “Vai-te embora. Já levaste falta.”

A sala explodiu num fartote de palmas, gargalhadas e opiniões. E eu trancado por fora, escutando: “é para aprenderes.” Okay, sem problemas. Aceito esse argumento, pensei. Tenho meus botões, que não me abandonam nunca, e foi para eles que me virei, conferenciando um tanto. A conclusão: Dona Glória². Que empurrava um carrinho de rodas³, com afinco, de sala em sala, distribuindo e recolhendo computadores, projetores e cabos para ligação à internet. (Ainda não havia sido popularizado o WiFi.) Ela tinha, portanto, livre acesso às salas, aos armários, às arrecadações. Teria a chave-mestra?

Bem que a encontro, Dona Glória. Queira ver o basqueiro que… Bati, bati e mais mando abaixo a porta. Decerto estará trancada. Não me ouvem. Posso perder a aula. Quase a terminar, entende?” Entendeu. Pedia-lhe ajuda. Que viesse comigo e veio.

“Ora, oiça. Impossivel, não?” Dona Glória não necessitou de encostar sua orelha à porta para concordar. Era impossível que me ouvissem. Por isso, bateu com firmeza e voltou a bater. Ninguém abriu, ninguém tentou. Tentou ela girar o manípulo, que não girou um centímetro, e pronto. Enfiou-se na bata e dela se desenfiou com o molhe de chaves. “Obrigado, Dona Glória. Obrigadíssimo. Tá resolvido. Não se preocupe em ficar. Safou-me. Até logo. Xau.”

Não quis ser indelicado ou mal agradecido, mas tive de enxutá-la, de a despachar pelo corredor – que desembocava na 31, para poder iniciar a rodar o manípulo. (A surpresa é uma força?) E, no instante em que contornou a esquina, lutando por manter zipado meu sorriso, empurrei com o ombro a porta para dentro, dentro da dignidade que me era concedida com uma
nata na mão em cima de outra nata na mesma mão e uma mochila às costas. “Bom-dia, professora. Continue, por favor.“

Fez-se silêncio. De morte? Talvez a rapaziada tenha encravado, boquiaberta? A prof. ficou também arralampada, virando-se, por momentos, aos apontamentos, como se neles figurasse a resposta para tão extraordinária magia. Diga-se que faltavam menos de minutos para o toque e eu ali, sacando do estojo e do caderno, interessado na matéria disposta na ardósia?

Não demorou para os foguetes. Foguetes na fala dos outros. Cá fora, amigos de amigos questionavam meu feito. Meu proveito? Comentando igualmente minha fama que galgava já os muros da escola, as fronteiras do concelho? Corria que destrancara uma porta por fora para que não me expulsassem por dentro? Que entrara de cara séria, fossem horas de entrar. A cara e o “bom-dia, professora. Continue, por favor.” “Que rei, meu puto.”

É evidente que a prof. não gostou e ficou chateada, recusando as natas como se a culpa fosse minha. Tanto que se queixou de queixinhas à diretora de turma que aproveitou para tirar justificações, ameaçando-me de suspensão. Da minha boca não saberia uma única coisa. Uma. Que investigasse. Tinha as chaves a meu desejo, sim. Inclusive a do portão.

Nas suas costas, fui bajulando prof. I. com duas natas por aula, evitando para prejuízo próprio comer a minha. Até ao final do período não mais me atrasei. Por sorte, o meu esforço deu frutos, e ela deu a volta à D.T., sem evitar, todavia, que descarregasse na reunião de pais. Tendo ido, aliás, além. Tivessem eles cuidado. Deveria ter sérios problemas. Desenhava, no diário-gráfico, pernas de mulher e seus saltos altos. Quereria dizer: gay? Essa espécie de doença.



¹No balneário, calmex.

²Talvez, à época, fosse o único a tomar as contínuas por reais. Perante uns, eram invisíveis. Mas eu não aceitava que as ignorassem assim. Eram pessoas minhas amigas que me tratavam pelo diminutivo do meu nome próprio e às quais distribuía elogios pela manhã, tangerinas ao almoço e até-amanhãs à saída.

³Quando nos cruzávamos, pelos corredores da secundária, era costume piropear a sua condução e o seu veículo, questionando a marca do mesmo, tal o speed que levava. Vai de Ferrari, Dona Glória? Ela desatava a rir e, sem travar, olhando para trás, respondia que não¹. Que era um Mercedes. Preferia. E eu ria de volta, julgando os meandros do mundo no feminino. Para qualquer senhora, será o seu conforto a mais básica das comodidades?

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