Plataforma “Babel Classroom” para alunos estrangeiros – Traduz aulas em tempo real e levanta desafios pedagógicos nas escolas

A nova plataforma “Babel Classroom”, apresentada em Óbidos, permite traduzir em tempo real as aulas dadas em português para alunos estrangeiros. A solução promete facilitar a inclusão, mas levanta também questões sobre aprendizagem da língua, fiabilidade e uso em contexto educativo.

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A diversidade linguística nas escolas portuguesas continua a crescer e, com ela, os desafios enfrentados pelos professores. Para responder a essa realidade, foi recentemente apresentada em Óbidos a plataforma digital Babel Classroom (https://babelclassroom.com), desenvolvida pela ImpactWave, que permite traduzir em tempo real as aulas lecionadas em português para vários idiomas.

A ferramenta capta a voz do professor, transcrevendo-a automaticamente e traduzindo-a em simultâneo para até quatro línguas, numa segunda janela acessível aos alunos, facilitando o acompanhamento das explicações e incentivando a participação.

Apoio ao professor e inclusão dos alunos

Para os docentes, esta tecnologia surge como uma resposta a dificuldades já sentidas no terreno. Em muitas turmas, a presença de alunos com níveis muito distintos de domínio do português obriga a adaptações constantes do ritmo e dos conteúdos.

Questionado pelo O Cidadão, o CEO da ImpactWave, Ricardo Cardoso, sublinha que a plataforma foi pensada precisamente para não alterar a prática do professor:

“Com o Babel Classroom o Professor leciona a aula da forma como sempre fez, com a vantagem de não ter de quebrar o ritmo da aula para ajudar os alunos que ainda não compreendem a Língua Portuguesa.”

Segundo o responsável, a tecnologia entra “de uma forma transparente”, funcionando como outro recurso digital de apoio pedagógico.

Fiabilidade e controlo pedagógico

Uma das questões críticas prende-se com a precisão da tradução, sobretudo em áreas científicas. Ricardo Cardoso reconhece que o risco pode surgir ao nível da transcrição do áudio, mas explica que foram introduzidos mecanismos de mitigação:

Foram adicionados […] campos de texto que são preenchidos pelo Professor no início da aula, um para criação de contexto […] e outro para terminologias técnicas.”

Acrescenta ainda que o sistema integra “um sistema adicional de IA verticalizado para o setor do Ensino e Educação”, que permite entregar uma versão “legível, contextualizada e adequada ao ambiente educativo”.

Quanto à fiabilidade global, o CEO afirma que o sistema assenta numa das tecnologias de tradução mais avançadas atualmente e aponta resultados positivos dos testes realizados:

“O feedback da tradução que temos dos alunos que participaram no piloto foi muito bom, o controlo pedagógico é feito pelo Professor existindo transcrições da aula […] que podem ser guardadas e validadas.”

Entre a inclusão e o risco de dependência

Apesar das vantagens, a plataforma levanta uma questão central: poderá a tradução permanente atrasar a aprendizagem do português?

Ricardo Cardoso rejeita essa ideia, defendendo que a ferramenta deve ser entendida como apoio transitório:

“O Babel Classroom serve como uma ferramenta de transição e apoio no processo da aprendizagem da Língua Portuguesa; todos os outros mecanismos […] devem continuar a ser aplicados.”

O responsável sublinha ainda que a própria comparação entre idiomas pode favorecer a aprendizagem:

“As transcrições […] permitem que o aluno possa comparar os termos nos diferentes idiomas e assim ajudar no processo de compreensão da Língua Portuguesa.”

Quanto ao risco de dependência, a experiência piloto aponta, segundo o CEO, para o efeito contrário:

“Os alunos que não compreendem a Língua Portuguesa estão desmotivados […] o que verificámos foi que passaram a interagir muito mais.”

E acrescenta um exemplo concreto:

“Um deles sorriu pela primeira vez quando viu no sistema a bandeira do seu País.”

Ainda assim, especialistas em educação alertam que a eficácia deste tipo de tecnologia dependerá sempre da forma como é utilizada. Um uso prolongado e sem regulação pode criar dependência da língua materna, enquanto uma utilização progressiva e articulada com o ensino de Português Língua Não Materna poderá potenciar a integração.

Custos e proteção de dados

Outro dos pontos críticos diz respeito ao financiamento da solução. Ricardo Cardoso admite que as escolas dificilmente terão meios próprios para suportar este tipo de tecnologia:

“Sabendo que as escolas não têm normalmente verba para este tipo de soluções, o financiamento […] deverá ser assegurado pelos Municípios.”

O responsável enquadra a plataforma como um investimento público na inclusão:

“O Babel Classroom é um sistema de inclusão linguística e integração social.”

No que se refere à proteção de dados — uma preocupação acrescida em contexto escolar —, garante que a plataforma está alinhada com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD):

“Não é feita recolha de dados pessoais dos alunos, o áudio é cifrado e não passa pelos nossos servidores.”

Segundo o CEO, o controlo da informação é assegurado pela própria escola:

“A exibição, tradução e transcrição é controlada totalmente pela Escola e pelo Professor.”

A Babel Classroom surge, assim, como uma solução inovadora para um problema real das escolas portuguesas. Entre o potencial de inclusão e os desafios pedagógicos que levanta, o seu impacto dependerá da forma como for integrada no quotidiano escolar — e da capacidade de equilibrar o acesso imediato à compreensão com a construção progressiva da autonomia linguística.

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