Confesso sem dificuldade, que quando Francesco Farioli chegou ao Futebol Clube do
Porto, tive muitas reservas.
Não pelo currículo, nem pela preparação teórica que lhe era reconhecida, mas porque o
FC Porto não é um clube para experiências académicas nem para treinadores de
laboratório. O FC Porto exige intensidade, personalidade, capacidade de liderança e,
acima de tudo, compreensão do que significa usar este símbolo.
A verdade, porém, é que Farioli conseguiu surpreender muitos portistas — incluindo eu
próprio.
Mais do que ideias tácticas modernas ou um futebol organizado, aquilo que
verdadeiramente marcou esta época foi a forma como conseguiu unir o balneário e
recuperar algo que o Porto nunca pode perder: espírito competitivo, compromisso
coletivo e identidade, tudo isto aliado a uma excelente comunicação. Viu-se novamente
uma equipa com alma, com entrega e com sentido de missão. Uma equipa que nos deu
crença e nos fez acreditar.
E nisso, a “presença” de Jorge Costa foi também determinante. Sentiu-se, em muitos
momentos, o reaparecimento da velha raça do “Bicho”: um FC Porto intenso, incómodo,
emocionalmente forte e capaz de lutar até ao limite. Esse ADN esteve adormecido na
época passada e voltou finalmente a dar sinais de vida.
Também no mercado houve mérito claro. A maioria das contratações revelou critério,
equilíbrio e capacidade para acrescentar qualidade ao plantel. Houve reforços que
encaixaram rapidamente na exigência do clube e mostraram personalidade para competir
com a pressão própria do Dragão.
No entanto e apesar de uma época muito positiva, exponenciada com a conquista do titulo
de campeão nacional, ficou ainda a sensação de que esta equipa podia ainda ter ido mais
longe.
Faltou, em momentos decisivos, uma ambição ainda mais feroz e aquela ousadia histórica
que fazem parte do ADN portista. O FC Porto não foi construído para gerir mínimos nem
para se satisfazer com campanhas honrosas. Foi construído para atacar competições até ao
fim, sem medo de ninguém.
E é precisamente aí que permanece a maior interrogação desta época.
Porque olhando para o percurso europeu e para a caminhada interna, fica a ideia clara de
que o Futebol Clube do Porto tinha condições para conquistar mais. Com uma abordagem
mais agressiva em certos jogos, maior coragem estratégica e uma mentalidade ainda mais
dominadora, talvez fosse possível chegar à conquista da UEFA Europa League e da Taça
de Portugal.
Ainda assim, seria injusto ignorar a evolução evidente da equipa e o trabalho de
reconstrução realizado num contexto externo em que tudo estava programado para não
sermos campeões.
Mas Francesco Farioli devolveu organização, identidade e
competitividade ao FC Porto. E isso, depois de anos de desgaste emocional e
instabilidade, é um mérito assinalável.
Agora, o próximo passo é outro: transformar essa recuperação de espírito em cultura de
conquista. Porque no FC Porto, recuperar o ADN é importante. Mas cumprir o ADN
significa ganhar. E esse é e será sempre o nosso eterno desígnio.

Advogado














