Fala-se muito da importância do associativismo. Repete-se que é um pilar da
sociedade, um espaço de cidadania, cultura e coesão. Mas há uma pergunta
incómoda que raramente se coloca: estará o associativismo a cumprir esse
papel, ou limitou-se a sobreviver à custa do passado?
Numa sociedade cada vez mais individualista, é fácil culpar “a falta de tempo” ou
“as novas gerações” pela dificuldade em mobilizar voluntários. Mas essa
explicação, embora conveniente, pode ser demasiado simplista. E se o problema
não estiver apenas nas pessoas, mas também nas próprias associações!
Durante anos, muitas coletividades viveram do esforço quase inesgotável de um
núcleo reduzido de dirigentes, frequentemente os mesmos, década após
década. Essa dedicação é inegável e merece reconhecimento. Mas também
levanta uma questão, terá essa continuidade contribuído para a vitalidade do
associativismo, ou para a sua estagnação.
A minha experiência enquanto vice-presidente do Orfeão de Matosinhos
mostrou-me duas realidades em simultâneo. Por um lado, o enorme valor destas
instituições na promoção da cultura, da identidade e da coesão social. Por outro,
a dificuldade real em atrair novas pessoas, novas ideias e novas formas de fazer.
E sem isso, o risco é claro, as associações tornam-se relevantes apenas para
quem já lá está.
Celebrar mais de um século de história é motivo de orgulho. Mas também pode
ser um sinal de alerta. Quando o passado pesa mais do que o futuro, corre-se o
risco de transformar legado em conforto, e tradição em resistência à mudança.
Fala-se muito da necessidade de atrair jovens. Mas quantas associações estão
verdadeiramente dispostas a dar-lhes espaço para decidir, errar e liderar.
Quantas estão preparadas para mudar práticas, linguagens e até modelos de
funcionamento. A renovação geracional não se faz apenas com convites, faz-se
com cedência real de poder.
Reinventar o associativismo não é uma opção estética; é uma questão de
sobrevivência. Passa por assumir que o modelo tradicional já não chega, que a
presença digital não é acessória e que a oferta cultural tem de dialogar com
novos públicos. Caso contrário, continuará a haver discursos sobre a importância
das associações, mas cada vez menos pessoas dentro delas.
O associativismo não está em risco por falta de relevância. Está em risco por
falta de transformação.
A questão que se impõe é simples: queremos preservar instituições, ou mantê-
las vivas?

Shipchandler














