A arte de domesticar o desejo

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Ninguém nos explica muito bem quando começa essa aprendizagem. Talvez na infância, quando percebemos que nem tudo o que queremos pode acontecer logo. Ou talvez ainda antes, quando estendemos a mão para qualquer coisa e alguém diz “agora não”. Não é uma lição formal. É mais um conjunto de pequenos travões espalhados pela vida.

O desejo tem qualquer coisa de indisciplinado. Chega antes da explicação. O corpo inclina-se um pouco para a frente, a atenção fixa-se, e só depois a cabeça começa a inventar razões. Chamamos-lhe necessidade, curiosidade, ambição, projeto, estabilidade. Palavras mais compostas, mais educadas. Mas muitas vezes é só desejo a tentar vestir um fato que lhe fica ligeiramente apertado.

Há quem diga que o desejo nasce da falta. Não sei se é sempre assim. Às vezes parece mais um excesso. Como escreveu Fernando Pessoa, “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Talvez seja isso. Não nos falta propriamente nada. Mas sobra-nos imaginação para desejar coisas que até ontem não existiam na nossa vida.

A vida adulta talvez seja isto. Tentar domesticar o desejo sem o matar.

Porque o desejo também é motor. Foi ele que nos fez sair de casa, procurar alguém, insistir numa ideia que parecia absurda, mudar de cidade, voltar atrás, tentar outra vez. Sem desejo, suspeito que grande parte da história humana seria apenas um longo adiamento. Ou talvez não. Talvez estivéssemos todos mais descansados.

Mas o desejo também tem pressa. Quer tudo agora, quer às vezes aquilo que nos complica a vida, e raramente aparece com manual de instruções.

Aliás, o desejo tem um talento especial para situações absolutamente ridículas. Já entrei num supermercado para comprar pão e saí com um descascador de ananás profissional. Eu não como ananás com frequência suficiente para justificar profissionalismo nenhum. Mas naquele momento parecia evidente que a minha vida ia finalmente entrar nos eixos graças a um utensílio especializado em fruta tropical. Dez minutos depois estava em casa a olhar para aquilo e a pensar duas coisas: primeiro, que não fazia ideia de onde guardar aquilo. Segundo, que provavelmente alguém num departamento de marketing compreende o desejo humano melhor do que a maior parte dos filósofos.

A família tenta domesticar o desejo cedo. A escola continua o trabalho. A religião, quando existe, oferece regras claras. O trabalho acrescenta outras. E depois há o resto do mundo, que parece passar o tempo inteiro a tentar acordar desejos que ainda nem sabíamos que tínhamos.

No meio disto tudo, cada pessoa vai improvisando o seu método. Há quem tente ignorar o desejo até ele desaparecer. Há quem lhe abra a porta demasiadas vezes e depois passe anos a lidar com as consequências. E há quem vá aprendendo lentamente a reconhecer quando o desejo é só impulso e quando é sinal de alguma coisa que merece mesmo atenção.

Talvez maturidade não seja deixar de desejar. Talvez seja aprender a escutar o desejo sem lhe entregar imediatamente o comando.

Porque o desejo raramente desaparece. No máximo muda de forma. Aprende maneiras novas de falar connosco.

E a verdade é que ninguém nos ensinou realmente essa arte. Vamos tentando. Às vezes acertamos. Outras vezes percebemos tarde demais que aquilo que pensávamos ter domesticado estava apenas à espera de um momento para voltar a puxar a trela.

Ou talvez seja o contrário.

Talvez a verdadeira arte esteja em perceber que o desejo nunca ficou completamente domesticado. E que, se formos honestos, também nunca quisemos muito que ficasse.



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