Quando alguém me diz, muito seguro: “Eu sou de confiança, podes confiar”, há uma coisa estranha que acontece dentro de mim.
Sinto um aperto. Pequeno, mas real.
Como se me estivessem a pedir para abrir a porta antes de eu ter a certeza de quem está do outro lado.
E eu fico ali.
Entre querer acreditar e querer proteger-me. Às vezes até sorrio e concordo, mas por dentro algo trava.
A verdade é esta: tenho medo de ser traído.
Dito assim parece dramático. Talvez seja. Mas o medo não precisa de ser épico para existir.
É um medo simples.
Medo de entregar algo que me é íntimo e descobrir, mais tarde, que li mal a pessoa.
Medo de ter confundido intensidade com segurança. Medo de me ter enganado outra vez.
Confiança, para mim, nunca foi imediata. Ela cresce quase sem que eu perceba.
Num dia ainda estou a medir as palavras. Noutro já estou a contar uma fragilidade sem pensar muito.
E só depois noto que algo mudou.
Quando alguém pede confiança logo no início, sinto que o ritmo deixa de ser meu.
E isso incomoda-me mais do que eu gostava de admitir.
Há um lado meio ridículo nisto tudo.
Se existisse um cartão oficial de “Pessoa Confiável”, talvez viesse plastificado, com holograma, assinatura reconhecida e validade até 2099.
Renovável mediante comportamento consistente e ausência de surpresas desagradáveis.
Talvez eu pedisse para ver duas vezes.
Talvez mesmo assim desconfiasse da tinta.
Mas a vida não funciona com certificados.
Funciona com repetição.
Com presença.
Com pequenas provas que ninguém anuncia.
O que me custa não é confiar.
É sentir que me estão a apressar a vulnerabilidade.
Porque vulnerabilidade é risco: risco dói quando corre mal.
Talvez haja em mim memória de ter aberto cedo demais.
Talvez seja apenas prudência.
Talvez eu ainda esteja a aprender a diferença.
As pessoas mais confiáveis que conheço nunca se proclamaram assim.
Foram ficando.
Foram aparecendo outra vez.
Foram sustentando detalhes pequenos, quase invisíveis.
E um dia eu percebo que já confiei.
Sem anúncio.
Sem pedido.
Sem contrato.
Confiança tem tempo próprio.
E talvez o verdadeiro gesto de respeito seja aceitar que ela amadurece devagar.
Mesmo quando o medo ainda anda por perto.
Ou talvez eu ainda esteja a descobrir se o medo protege… ou apenas me atrasa.

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