Em Espanha consolidou-se a teoria dramática: visitar o Porto é pôr a relação em risco. Chega-se apaixonado, regressa-se em modo “vamos conversar”. A cidade teria um misterioso poder dissolvente, algures entre a Ribeira e os Clérigos.
Há apenas um pequeno problema: os dados.
Um estudo internacional coloca o Porto no terceiro lugar mundial na frequência de relações sexuais semanais. 64% dos portuenses afirmam ter relações pelo menos uma vez por semana. Convenhamos: não é exatamente o retrato de uma cidade emocionalmente devastada. Se isto é maldição, é a primeira praga urbana que melhora indicadores de atividade física.
A ironia é notável. Enquanto alguns visitantes regressam a Espanha convencidos de que o Douro lhes sabotou o romance, os residentes continuam, discretamente, a sustentar um lugar no pódio global. A “maldição” parece funcionar sobretudo em regime de exportação — curiosamente sem afetar a população local.
Talvez a questão não seja o que o Porto faz aos casais espanhóis, mas o que uma viagem revela. A psicologia chama-lhe viés de confirmação: escolhe-se uma história sedutora e procuram-se provas que a confirmem. Um casal termina após um fim de semana na Invicta? Evidência. Vinte regressam mais cúmplices? Estatística aborrecida.
Viajar é um teste intensivo: decisões partilhadas, cansaço, expectativas elevadas. Se a relação já tinha fissuras, a escapadinha pode apenas acelerar o inevitável. A cidade não cria o problema — ilumina-o com vista panorâmica.
Entre superstição e amostra representativa, o resultado é claro: Ranking 3.º lugar — Maldição 0.
Se há algo de perturbador no Porto, não é a quebra do amor. Pelos números, é precisamente o contrário. Talvez o verdadeiro mistério não seja porque alguns casais acabam depois de visitar a Invicta.
Talvez seja o que descobrem quando regressam a casa.
Advogado, Psicólogo e Investigador Universitário














