Já olharam pela janela ultimamente? Telhados a voar, caves inundadas, 15 mortos e o Estado a declarar calamidade… outra vez. As tempestades Kristin, Leonardo, Marta e restantes que têm assolado o país dão-nos um lembrete visual de quem realmente manda nisto tudo: a Natureza. Mas para quem gere uma PME em Portugal, esta trovoada lá fora é quase um momento zen comparado com o furacão que se passa dentro de portas, faça sol ou faça chuva.
Há uma ideia romântica, ou talvez apenas mal informada, de que ser empresário é viver num estado de privilégio perpétuo, entre almoços demorados e carros de gama alta. A realidade de quem tem “o nome no papel” assemelha-se mais à de um capitão de um barco de pesca em pleno Atlântico Norte: somos os primeiros a acordar para ver se o casco aguenta e os últimos a comer se a pescaria falhar.
O mote principal é este – ser empresário em Portugal não é um privilégio, é um desporto de alta competição onde as regras mudam muitas vezes a meio do jogo e o árbitro (o Estado) parece ter uma aposta contra nós.
Comecemos pela “chuva miudinha” que nunca pára: a burocracia e os impostos. O Estado é aquele sócio silencioso que nunca aparece para ajudar a carregar caixas, mas que entra logo à cabeça com 23% de IVA, um IRC que com derramas ronda os 25% e uma TSU que transforma 1.000€ líquidos em quase 2.000€ de custo total. Pagamos como suecos para ter serviços de um Estado que mais parecem saídos de um sketch do Gato Fedorento. Sobretudo em alturas críticas como esta, a resposta é, ela própria, uma verdadeira desgraça
Depois, temos as crises de RH, que hoje em dia são mais frequentes do que as frentes frias. Estamos a viver uma rotatividade absurda. As novas gerações, os nossos queridos nativos digitais, tratam o emprego com a mesma lógica com que gerem uma playlist do Spotify: se a música não agarra nos primeiros 30 segundos, passam à próxima. Gerir uma equipa hoje exige mais dotes de psicologia e diplomacia do que de gestão industrial. Entre o “quiet quitting” e a procura incessante pelo “propósito”, o empresário dá por si a fazer malabarismos para manter a máquina a funcionar enquanto tenta perceber se o café da empresa é suficientemente “bio” para evitar uma demissão em massa.
E quando achamos que o mar está calmo, surge a necessidade de financiamento. Numa PME, o fluxo de caixa é o oxigénio. Mas, em Portugal, o acesso ao crédito é muitas vezes um labirinto onde os bancos nos pedem garantias que provam que não precisamos do dinheiro para nos darem o dinheiro. É a ironia suprema: “Damos-lhe o guarda-chuva, mas só se nos provar que não vai chover”.
Na minha actividade, dizem-me muitas vezes: “Tu tens robôs, estás safo!”. Gostava que fosse assim. O robô não se queixa do salário, é verdade, mas o robô não paga impostos, não consome na economia local e, ao contrário do que muitos imaginam, não substitui a coragem de quem assina os cheques ao fim do mês. A tecnologia ajuda-nos a produzir, mas é o empresário, aquele de carne e osso, que tem de ter o estômago para decidir se investe meio milhão numa máquina nova ou se guarda o fôlego para a próxima subida da Euribor.
Estas tempestades meteorológicas são apenas um aviso. Talvez tenhamos de nos habituar a eventos extremos, tanto no clima como na economia. A resiliência já não é uma opção, é o equipamento de série. Mas convinha que a sociedade percebesse que, se o empresário se cansar de segurar o guarda-chuva para todos, quem se molha primeiro é quem está debaixo dele.
No fundo, gerir uma PME hoje é saber que o telhado pode meter água a qualquer momento, mas que não nos podemos dar ao luxo de parar a produção. É ser o bombeiro-mor de serviço, o psicólogo, o banqueiro e o eterno otimista, tudo isto antes da hora do almoço.
Da próxima vez que passar por uma empresa local e vir as luzes acesas até tarde, não pense no “privilégio”. Pense que, lá dentro, está alguém a tentar domar um furacão com as mãos nuas, só para garantir que amanhã as portas se voltem a abrir. Deixo-lhe o seguinte desafio: quando for criticar “o patrão”, pergunte-se se teria a coragem de ser o único a ficar no convés quando a onda bate com mais força.
Afinal, qualquer um sabe navegar em mar calmo, mas é na tempestade que se vê quem realmente sabe onde fica o Norte.
Empresário – Automação e Robótica














