Em Busca do Deserto do Silêncio Inconsútil

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Há uma sede antiga no ser humano — não de água, nem de pão, mas de silêncio. Não aquele silêncio vazio, mudo, desabitado, mas o silêncio pleno, habitado por escutas, por respirações, por pausas que pensam. Esse silêncio não cala; escuta. Não apaga; revela. E é a ele que devemos ir, quando o mundo nos grita demais, quando as vozes exteriores se tornam ruído, e o ruído, confusão.

Procuramos esse silêncio como quem busca ouro nas entranhas do rio: com mãos trémulas, com olhar atento, com alma em jejum. Não o encontramos na ausência de sons, mas na presença de nós mesmos. Está na dança das árvores que sussurram vento aos ouvidos da terra; está na escrita que se faz pausa entre as palavras; está no pensamento que se recusa a responder logo, que espera — que escuta primeiro.

E, paradoxalmente, é dentro da própria tempestade que encontramos o silêncio mais verdadeiro. Porque o silêncio não é fuga, mas coragem. É navegar nas marés interiores — risos de crianças, gritos de dor, sussurros de medo — sem naufragar na reação imediata. É deixar que o vento agite as folhas da alma sem lhes arrancar as raízes. Quanto mais enfrentamos o turbilhão do mundo exterior, mais aprendemos a tecer, por dentro, um silêncio inconsútil: aquele que não se desfaz com o primeiro estrondo, aquele que resiste porque nasceu da paz interior, não da ausência do outro.

Vem-me então à memória o monge Arsénio da Capadócia, que, ao ser questionado sobre como viver entre homens sem perder a alma, respondeu: “Foge, cala-te, permanece em repouso.” E não era fuga do mundo, mas fuga da insensatez ruidosa que o mundo tece em nome da pressa, do julgamento, da opinião pronta. Arsénio sabia que o ruído mais perigoso não é o do mercado, mas o da mente que não se escuta — o barulho das certezas apressadas, das palavras que saem antes do pensamento estar maduro.

Assim como os Padres do Deserto — aqueles homens e mulheres do silêncio que preferiam pouco ou nada dizer, não por indiferença, mas por reverência diante do mistério da existência —, também eu cultivo uma palavra parcimoniosa. Não a palavra que domina, que convence, que impõe, mas a palavra que nasce do silêncio e a ele retorna. As palavras servem-me para pensar, para sentir, para ser e estar — nunca para vencer. Afasto-me, hoje, da argumentação estéril, do conflito vão, da palavra que se arrepia como um cão raivoso. Prefiro o deserto interior, onde cada frase é um oásis, cada pausa, uma um poema.

Por isso, o silêncio é um encontro — não com a solidão, mas com a própria alma. É nesse encontro que nos tornamos juncos: não árvores rígidas que quebram ao sopro do vento, mas hastes flexíveis que se curvam sem perder a raiz. O junco escuta a corrente e aprende com ela; não discute com o rio, dança com ele. E dançando, permanece.

Que sejamos, então, juncos no rio do tempo. Que sejamos monges sem hábito, buscadores do silêncio inconsútil. Porque só nele reside a paz que o mundo não pode dar — mas que todos, secretamente, desejam. E que, como os antigos do deserto, saibamos que às vezes a melhor resposta é o silêncio; que a mais profunda sabedoria é não falar; que a mais verdadeira presença é escutar — com o corpo inteiro, com a alma inteira, com o coração inteiro.

Encontremo-nos, pois, nesse silêncio, porque ali pensamos verdadeiramente. Sentimos. Somos. Estamos. E é o bastante.

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