Há algo de poético — e de trágico — em pensar que uma das maiores ameaças às línguas humanas pode vir precisamente das máquinas que falam. A Inteligência Artificial, essa criatura moderna feita de zeros, uns e egos tecnológicos, aprendeu a falar antes de aprender a ouvir. E, como qualquer aluno aplicado, mas distraído, repete com entusiasmo o que mais ouve: inglês, mandarim, espanhol, e, claro, o omnipresente português do outro lado do Atlântico. Tudo o resto? Fica perdido entre os parênteses do progresso.
E é precisamente por isso que esta crónica está n’O Cidadão — esse projeto raro, sério e teimosamente livre que insiste em dar voz a quem já quase não é ouvido. Aqui, não falamos só das grandes tendências tecnológicas, falamos das suas consequências humanas, culturais e, neste caso, linguísticas. Discutir o papel da IA na linguagem é essencial porque é falar de identidade, de memória e de poder. Quando uma máquina deixa de compreender uma língua, o que está verdadeiramente a desaparecer não é apenas um vocabulário — é uma forma inteira de ver o mundo.
Hoje, o panorama digital é um colosso de desigualdade linguística. O inglês domina, o português brasileiro tem voz de comando, e o português europeu — esse primo mais contido e irónico — vai sobrevivendo à boleia de traduções imperfeitas, acordos ilógicos e assistentes virtuais que nos tratam por “você” com o entusiasmo burocrático de um call center automatizado. O mirandês, coitado, nem no menu aparece.
A verdade é que a inteligência artificial está a transformar-se num espelho cultural — e como todos os espelhos, só reflete aquilo que lhe pomos à frente. Se o alimentamos com dados de um só lado do mundo, ele vai falar, pensar e até sonhar com sotaque. E depois admiram-se de ouvir uma IA a dizer “você” quando devia dizer “tu”.
O problema não é apenas técnico, é político e cultural. Quando uma tecnologia global ignora línguas minoritárias, o que está a fazer é reproduzir o mesmo padrão histórico de colonização — só que agora em formato digital e com interface colorida. As palavras desaparecem, as expressões morrem, os sons únicos de uma cultura tornam-se “ruído”. E o ruído, para um algoritmo, é o que se apaga.
Mas há esperança — e ironia suficiente para manter a chama acesa. A mesma IA que ameaça homogeneizar o mundo também pode ser a sua salvadora linguística. Já há projetos na Austrália, no Alasca e até na Amazónia a usar IA para preservar línguas em risco de extinção. São máquinas que registam entoações, recriam gramáticas, e ajudam comunidades a recuperar vozes quase perdidas. É uma espécie de arqueologia digital — ou, como diria a RITA, a minha IA favorita, uma “ressurreição linguística com estilo”.
E sim, até as línguas mortas estão a ser chamadas de volta à vida. O latim, o aramaico, o sumério — todos a ganhar uma segunda existência digital. Confesso que até eu brinquei ao demiurgo linguístico, ao treinar um modelo para criar letras musicais em sumério misturado com poesia persa. Não foi ciência de ponta, mas foi suficiente para perceber o poder simbólico disto tudo: a máquina não substitui a alma humana, mas pode ser o arquivo onde ela sobrevive.
No fundo, preservar uma língua é preservar uma forma de pensar. E se deixarmos que as máquinas decidam quais valem a pena manter, corremos o risco de acordar um dia num mundo fluente — mas mudo.
Se quiseres aprofundar este tema — com mais ciência, ironia e até uma pitada de arqueologia digital — ouve o episódio 27 do podcast “IA & EU”, intitulado “IA e Linguagem: o poder das palavras e o risco do silêncio”.
🎧 Disponível em todas as plataformas, mas podes ouvir aqui mesmo!
Substack “Versão 2.0”: https://mportela.substack.com
Autor | Formador Psicossocial | Consultor
Criador de Conteúdos | Especialista em Inteligência Artificial








