A primeira vez que ouvi referências aos albergues, não foi muito afável, fagueiro e polido…
Mas há que experimentar primeiro e comentar depois.
Em maio, fui obrigado a deixar o domicílio. Casado há sete anos, levei o “cartão vermelho” e fui obrigado abandonar o lar… A minha assistente social foi célere em me encontrar um albergue.
Ao fim de três dias já estava sem telemóvel, sem carregador e sem 40 euros que foram retirados da minha carteira…No momento em que fui à casa de banho…
Era um lugar estarrecedor e terrificante, por onde serpenteavam setenta pessoas de ambos os sexos. O Fellini, teria aproveitado os rostos e teria realizado um magnífico filme. Graças a Deus que me transferiram para outro albergue. Este sim! Catorze utentes e só homens!
O nível cultural subiu, encontrei um especialista em jazz e um advogado que imitava gaivotas. As condições logísticas, muito boas:
Cinco refeições diárias, duches de categoria, Internet em todas as instalações, TV ligada 24 horas por dia na sala de convívio e uma biblioteca.
Uma noite, o autocarro avariou, eu cheguei dez minutos retardado, o horário de recolher é às 22:30, simplesmente, não me deixaram entrar…Aí, fiquei na defensiva! Eu que vivi na Alemanha, onde os horários são muito estirados e inteiriçados, desconhecia que em Portugal era uma exigência tão restesada.
Tinham-me dado uma miniatura de whisky que eu juntei água e guardei numa outra garrafinha. Não sei como…Mas eu titubeio e escabreio de um vigilante…já foi utente e agora é vigilante e mais não digo…
Tirei todos os pertences do cacifo e fui forçado a abandonar o albergue e mais uma noite no aeroporto…Deram um mês para retirar o meu espólio. E eu, ao apartar e arredar os pertences, fiquei com aquela sensação de vazio e desguarnecido, nada nem ninguém me deu saudades. Nem o advogado que imitava gaivotas..
No início, estava inclinado a escrever um texto positivo sobre os albergues do Porto, isso foi no início…
Escrevi para o jornal digital “O Cidadão”, sobre todas as atividades que presenciei, que colaborei, secundei e assessorei. E o que eu me divertia com uma atividade mensal, em que a senhora diretora sentava todos os utentes numa roda, tipo “Voando Sobre um Ninho de Cucos” e, de seguida, uma das senhoras doutoras lia um poema ou um texto e depois pedia que cada utente comentasse o que acabara de ouvir…
A minha sincera opinião, nunca entendi bem qual o propósito desta atividade…
Para terminar, tínhamos uma psicóloga que ficou muito admirada com a rapidez e desenvoltura como eu respondia aos ignóbeis testes psicológicos… Desagradou-me profundamente a forma de aspereza e desabrimento como nos tratava…
A razão da minha expulsão, já escrevi sobre ela. Uma miniatura de whisky misturada com água, mais a saber a refresco, motivou a minha expulsão, enquanto um dos utentes, entrava embriagado a ameaçar todo o mundo, inclusivamente os vigilantes.
Para terminar… não poderei terminar sem falar sobre um dos vigilantes. Durante a noite, subia seis ou sete vezes para vigiar a casa de banho e, algumas vezes, entrava nos quartos para contar os utentes, inclusive fez queixa às senhoras doutoras onde eu guardava livros e cadernos, numa enorme secretária que se encontrava no primeiro andar, e não era usada por mais ninguém… Resumindo, esse senhor errou na profissão, deveria ter seguido a carreira de polícia! Eu diria mesmo, um forte candidato a ser um informador da PIDE…
O que gostei mais nos albergues?
Querem que vos diga?
Uma horta que eu reguei e revolvia a terra, após o jantar!
E apenas para terminar…
Agora entendo, como pode um músico, recolher ao albergue, pelas 22h30…
Músico/Colaborador







