Não preciso de mais provas para saber que a liderança feminina é uma força em movimento. Vejo-a. Escuto-a. Sinto-a acontecer. E não me resigno a vê-la ainda condicionada por modelos ultrapassados de poder, pelas estruturas opacas de promoção ou por culturas organizacionais onde o mérito só é reconhecido se vier com a tonalidade certa e, muitas vezes, com o género que é esperado.
Há poucos dias, ouvi presencialmente a Deputada Catarina Louro, num evento com empreendedores da Região Centro. O que partilhou foi uma demonstração de presença, firme e empática. Não se limitou a apresentar políticas públicas. Apresentou visão, consistência e a rara capacidade de estar com, e para as pessoas. Vi ali uma liderança que não procura palco, mas que tem substância para transformar o país.
Já em abril, a Débora Campos atravessou fronteiras ao conquistar o Prémio Europeu para Mulheres Inovadoras, na categoria “Liderança Feminina EIT”. A sua empresa, a AgroGrin Tech, converte os desperdícios industriais de fruta em soluções tecnológicas de alto valor, não só económico, mas também ambiental e nutricional. Inovação, sustentabilidade, economia circular, saúde.
Dois exemplos, tão distintos e tão próximos que demonstram claramente que não é o talento que falta. É o reconhecimento.
Uma questão que, para mim, já não é teórica. É profundamente prática.
Continuamos a construir estratégias empresariais e políticas públicas como se a liderança fosse uma qualidade excecional, rara, uma pedra preciosa muito difícil de encontrar. Mas a verdade é que ela existe. Está já entre nós, pronta a agir, pronta a servir, pronta a transformar.
Estamos a desperdiçar. A esgotar o talento em tarefas secundárias, em cargos invisíveis, nas lutas solitárias pela legitimação. O talento está a definhar pela ausência de validação. Estamos a obrigar o talento a esperar por “oportunidades futuras”, que nunca chegam, quando o futuro precisa dele agora.
E no caso das mulheres, não falta talento feminino, falta sim a coragem para lhe atribuir poder. Já o afirmei, e acrescento, falta também humildade para escutar as suas propostas, e a visão para integrá-las no centro das decisões.
Portugal é pequeno demais para desperdiçar quem tem valor. E é grande demais para continuar a crescer com estruturas que só promovem quem grita mais alto, ao invés de quem pensa mais além.
Neste momento, o que Portugal verdadeiramente precisa é criar ecossistemas de reconhecimento real, não apenas de apresentar bonitos prémios simbólicos. É dentro das empresas, das escolas, das universidades, dos municípios, dos centros de decisão pública e privada, que temos de reformular os nossos critérios de liderança.
A Débora não venceu por sorte. A Catarina não se impôs por favor. São líderes porque têm substância, visão e coragem. E são apenas dois exemplos num mar de talento que continua à margem.
Reconhecer o talento é uma urgência ética, estratégica e cultural, e estamos a tempo de o fazer. De fazer diferente.
Mas só se fizermos agora.
Portugal: Reconhecer para reconstruir – Por Rui Rodrigues
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Doutorado em Administração de Empresas | Consultor e Formador | Fundador da MindsetSucesso | Investigador em Sucessão Empresarial, Liderança no Feminino e Desenvolvimento de Talento














