“Afinidades” no Museu Soares dos Reis: quando a cerâmica se torna ponte entre passado e futuro

Entrar no Museu Nacional Soares dos Reis, Porto, é como atravessar um portal no tempo. As paredes do antigo Palácio dos Carrancas respiram história, e cada sala guarda ecos de séculos passados. Mas, este verão, algo diferente aconteceu: a cerâmica contemporânea tomou um lugar ao lado da tradição. A inauguração da segunda edição do programa Afinidades trouxe mais do que uma exposição; trouxe um diálogo vivo entre épocas, linguagens e sensibilidades.

Mais artigos

Foto de A.R.

O mote não podia ser mais poético: uma pintura de natureza-morta, datada de 1645, de Pieter Claesz, serviu de ponto de partida para os artistas do Quarteirão Bombarda criarem peças em cerâmica. E, de repente, um género clássico ganhou voz no presente, moldado em barro, esmalte e fogo. A escolha não foi inocente: a cerâmica, com a sua fragilidade e resistência, fala de mãos humanas, de tempo e de transformação. É um material que atravessa gerações, assim como o próprio museu.

Foto de A.R.

O que mais me tocou neste projeto não foram apenas as 39 peças expostas, todas únicas e pessoais. Foi a coragem de um museu nacional abrir as suas portas e dizer à comunidade artística que o envolve: “Venham, conversem connosco”. Afinidades não é só uma exposição; é um gesto político e cultural. É a prova de que o património não é algo morto e que a contemporaneidade não necessita de ser uma ruptura para criar um diálogo com a tradição.

Foto de A.R.

Num tempo em que a cultura é tantas vezes vista como supérflua, iniciativas como esta são uma lufada de ar fresco. Aproximam o público do museu e dão voz a artistas que, de outra forma, poderiam ficar à margem. Há algo profundamente humano nesta troca: o museu deixa de ser um templo silencioso e torna-se um organismo vivo, que respira a cidade e devolve-lhe novas formas de beleza.
Enquanto caminhava pela exposição, não conseguia deixar de pensar que estas peças não são só obras de arte; são pontes. Entre o Porto antigo e o Porto criativo de hoje. Entre o gesto de um pintor holandês do século XVII e as mãos de ceramistas portugueses de 2025.
Entre quem cria e quem observa.

Foto de A.R.

Talvez seja isso que a cultura deve fazer: criar afinidades. Entre tempos, pessoas e linguagens. Que o Museu Nacional Soares dos Reis continue a ser mais do que um guardião do passado: que seja também um lugar de encontros, de risco e de futuro moldado em barro.

Se ainda não passaram pelo Museu Nacional Soares dos Reis, esta é a altura perfeita para o fazerem. A exposição Afinidades – Na Cerâmica Contemporânea convida-vos não só a descobrir peças únicas, mas também a participar ativamente neste diálogo entre arte e emoção. Cada visitante pode votar na obra que mais o toca, tornando-se parte desta história coletiva. Mais do que ver, é sentir: deixem que o barro, as cores e as formas falem convosco e escolham aquela peça que vos fica no coração.

image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -Advertisement

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img