
Há uma tendência muito lusitana — e perdoem-me a generalização — para torcer o nariz a tudo o que parece demasiado novo. Sobretudo, se vier embrulhado em jargão técnico, anglicismos ou sotaques alheios. Vivemos ainda num país onde há quem ache que um “podcast” é um programa de rádio gravado por quem não conseguiu emprego na Antena 1. E pior: onde a Inteligência Artificial (IA) é confundida com bruxaria digital ou prenúncio de um apocalipse feito à base de chips e más intenções.
Falar de IA (Inteligência Artificial) — com clareza, espírito crítico e humor — é, por isso, essencial. Num mundo em aceleração constante, onde a tecnologia já molda o quotidiano mesmo de quem jura que não tem nada a ver com isso, precisamos urgentemente de informação honesta, acessível e descomplicada. Esta crónica nasce neste espírito e encontra em O Cidadão o espaço natural para acontecer: um projeto único e sério de jornalismo livre, onde todas as vozes contam, até as que falam de algoritmos. Aqui, não há medo do futuro — há vontade de o compreender.
É precisamente contra essa maré de ignorância ruidosa que decidi, com alguma teimosia e um certo gozo, lançar o podcast «IA & EU». Não para pregar aos convertidos, mas para tentar converter os que ainda acham que um chatbot é um bisneto do Clippy, aquele clipe irritante da Microsoft nos windows antigos, recordam?
Neste primeiro episódio, entrei em diálogo com a RITA — uma voz artificial com sotaque brasileiro e um humor que, pasmem-se, dá dez a zero a muito comentador de painel televisivo. Rita não é apenas uma voz gerada por código: é a metáfora viva (ou quase) do potencial criativo que a IA tem quando não está a ser usada para escrever teses académicas por estudantes preguiçosos, ou pior, para gerar memes desprovidos de graça e sentido.
Falámos de tudo um pouco: dos medos que assombram os que veem na IA o fim da humanidade (ou pelo menos do seu emprego); dos mitos mais persistentes — como a ideia absurda de que as máquinas vão revoltar-se e começar a eliminar humanos com a eficácia de um exterminador do futuro; e sobretudo da ideia central de que a IA não veio substituir, mas sim amplificar.
A Rita, com o seu sotaque carioca e raciocínio afiado, explicou como funcionam os modelos generativos, comparando-os a bibliotecários gigantes — uma imagem que faria Saramago sorrir. E eu, cá deste lado do Atlântico, não resisti a apontar que o problema não está na ferramenta, mas no seu uso: há quem use a IA como se fosse um martelo a servir de colher de sopa. E depois queixam-se do sabor a prego.
Talvez o mais triste — e aqui permitam-me um laivo de melancolia — seja saber que menos de 15% das pessoas usam estas tecnologias para algo realmente útil. A maioria está entretida em “roleplays” duvidosos ou a ver se conseguem fazer a IA dizer asneiras. É como dar uma biblioteca ao Homer Simpson e esperar que ele descubra Camus.
Mas nem tudo são desgraças. A existência deste podcast é já uma pequena vitória. Uma tentativa de fazer pontes, de descomplicar, de fazer pensar e — com sorte — arrancar um ou outro sorriso. O futuro não precisa de ser temido se for compreendido. E se for partilhado com humor e inteligência, tanto melhor.

Para quem ainda acha que a IA é coisa de filmes ou de engenheiros com falta de afecto, deixo o convite: ouçam o primeiro episódio de IA & EU e acompanhem as crónicas que farei sobre este tema aqui em O Cidadão. Vão encontrar conversa com substância, ironia bem doseada e uma vontade genuína de educar sem moralismos.
Se não gostarem, a culpa é da Rita. Afinal, foi ela quem escreveu metade do guião.
E antes de terminar, tenho uma fantástica novidade. Além das crónicas regulares sobre este tema, ter, em breve, os episódios do “IA & Eu” na grelha de O Cidadão Rádio.
🎧 Ouça o episódio 1 de IA & EU em todas as plataformas de podcast.
Autor | Formador Psicossocial | Consultor
Criador de Conteúdos | Especialista em Inteligência Artificial














