
Subi a Rua Passos Manuel e, visita obrigatória à bilheteira, onde passei tantas tardes e noites com o Sr. Morais, e, mais recentemente, com o Celestino. Quem trabalha numa bilheteira, é o possuidor das melhores informações sobre os espetáculos. Grandes produtores, no tempo em que fui diretor artístico do Coliseu do Porto, era com ele, que trocavam as primeiras impressões:
– Celestino! Temos quantos bilhetes vendidos?
Ou, os mais esclarecidos, antes de alugarem o espaço:
– Celestino! Este artista enche a casa?
Normalmente a previsão certeira, rondava os 90%…
Na hora prevista, entrei naquela foi a minha segunda casa, durante tantos anos. Os meus olhos, logo se encaminharam para as alterações efetuadas no espaço. Eu e o Miguel Pardal, dirigimo-nos aos nossos lugares, agradecendo aos operadores de sala a ajuda, mas de olhos fechados, de certo conseguiria acertar com os lugares. Foi no meu tempo que contratámos os primeiros operadores de sala, e já passaram trinta e quatro anos!
Há trinta e seis, estava eu a pisar o palco do Casino do Estoril, integrado na orquestra que iria suportar esse fantástico projeto, criado pelo maestro Pedro Osório e pelos três cantores convidados, “Só Nós Três – Fernando Tordo, Paulo de Carvalho e Carlos Mendes”.
Vou aproveitar para fazer uma justíssima referência aos nomes desses notáveis músicos que deram cor à sonoridade desse ciclópico concerto. Edgar Caramelo (saxofones) Tomás Pimentel (trompete), Telmo Marques, Emanuel Frazão e Pedro Osório (teclados), Armindo Neves (guitarra), António Ferro (baixo), João Nuno Represas (percussão) e Francisco Cardoso (bateria), com direção musical de Pedro Osório. A este espetáculo, foi ainda acrescentada uma secção de cordas e a “Glenn Miller Orchestra”, ainda estou a visionar os olhos do Pedro Osório ao “ouver” os seus arranjos, interpretados por esta fantástica big band.
Bem, voltemos ao Fernando!
No dia em que o Fernando completou sessenta e sete anos, no sábado, estar no palco do coliseu, com aquela calor humano, e ele referiu isso no início do espetáculo, foi deveras comovente…
Júlio Isidro, super elegante e sempre com uma qualidade de comunicação extraordinária, entabulou e debutou o espetáculo e referiu as noites, em que, juntamente com José Carlos Ary dos Santos, passaram inolvidáveis momentos de convívio e de trabalho. E chegou a hora da primeira canção da noite, “Cavalo à Solta”, onde Fernando se enquadrou sublimemente numa orquestração que me deixou aturdido e varado, pela sua qualidade sonora e pela supimpa afinação! Desfilaram canções antigas, canções modernas e canções ainda não registadas em áudio…
O Fernando ratificou que o seu próximo trabalho, será uma caixa com quatro CD’s.
Atrás de mim, sempre que uma canção terminava, ouvia uma voz: – Adeus Tristeza! Adeus Tristeza!
O Fernando rememorou aquele festival RTP da Canção, onde o Carlos do Carmo cantou todas as canções, e a dupla mais eficiente da canção em Portugal (Fernando Tordo/José Carlos Ary dos Santos) coadjuvou com a canção “Novo Fado Alegre” que imediatamente se escutou, na lendária e quimérica sala . As orquestrações desfilavam de forma fluente e bastante agradável, onde os graves tiveram relevância significativa. As minhas prolfaças aos arranjos musicais de Walter Lobo e de Lino Barreto. Esta orquestra que já me tinha conquistado desde a primeira nota, dirigida, sublimemente, pelo maestro Francisco Ferreira, alicerçou as magníficas canções a que assistimos. E entre tantos êxitos apresentados, a “Estrela da Tarde”, não podia ser olvidada…
O Fernando, contou-me a história desta canção…
Um dia, o Fernando chegou a casa do Ary, com uma melodia. Mal ouvida, o Ary disse
– Vou escrever uma letra com o tema de tarde, tardiamente, tardar, etc… E ao estilo de Mozart, escreveu a letra de uma ponta a outra, sem qualquer rasura…
Todos expectamos pela “Tourada” (?)…Lembro-me de ter acompanhado o Fernando na RTP e a termos interpretado em duo. Provavelmente, a única situação no mundo, em que um baixo imita a melodia da trompete, no início do espetáculo tauromáquico…
E foi com a “Tourada” que o Fernando encerrou o espetáculo, voltando para o encore, exigido pelo público.

Embora estando um pouco fora do contexto, não resisto a narrar duas histórias do Fernando, nas idas à América com o Luís Vilas Boas.
1ª história
Harlem (USA), o Fernando e o Vilas, os únicos brancos!
O Vilas, com aquele forma única de conseguir sempre o que queria, abordou o segurança e pediu para dizer ao Duke Ellington que estava ali o Vilas Boas! Passados uns momentos, alguém os leva à primeira fila.
Ouve-se o Vilas: – É Pá, você é um maricas pá!
Entram os músicos e o grande Duke!
As primeiras palavras do Duke:
– Vou dedicar este concerto ao meu amigo Vilas Boas, que veio de Portugal para me ver!
Diz logo o Vilas:
– Está a ver pá!
2ª história
Durante a noite, o Vilas preenchia a maior parte do seu tempo, a “zappingar” na TV. A uma determinada altura, é surpreendido pela morte do seu grande amigo, Louis Armstrong. Acorda rapidamente o Fernando:
– Eh Pá! Morreu o Satchmo, vista-se, temos que ir ao velório!
– Ó Vilas! São quatro da manhã… – disse o Fernando
Chegados ao velório, o Vilas insistia em tirar uma fotografia ao lado do caixão, onde estava o morto.
– Ó Vilas! Não me peças isso…
E porque escolhi o Vilas para terminar este texto?
É de enorme importância a influência dele no Fernando, no Carlos , no Paulo e em muitas outros cantores e cantoras em Portugal! Uma vez ele disse que se a nossa querida Simone de Oliveira tivesse nascido na América, poderia ter sido uma Sarah Vaughan, Betty Carter (trouxe-a ao Guimarães Jazz), ou Dee Dee Bridgwater, entre muitas outras…
Aprendi com ele, apenas uma palavra que tem sido a principal âncora da minha vida – ACREDITAR! Foi munido desse sentimento de acreditar que fui à China, gravar e tocar com o mestre do Er-Hu (violino chinês de duas Cordas), Wong On Yuen, um disco único, apenas com um Er-Hu e um baixo elétrico.
Se nós acreditarmos e não importa em quê, isso basta, para conseguirmos atingir os nossos objetivos.
Desculpem a minha ousadia, mas há um concerto , no meu entender, que foi o melhor espetáculo realizado em Portugal sobre a música portuguesa. Chamou-se “SÓ NÓS TRÊS-FERNANDO TORDO, PAULO DE CARVALHO E CARLOS MENDES” e realizou-se no Casino do Estoril, em 1989
Músico/Colaborador














