Vi há dias a retransmissão de um concerto na Philarmonie de Paris em que a jovem orquestra Sinfonia por el Peru, dirigida por Ana María Patiño-Osorio, acompanhou Juan Diego Flórez, um dos maiores tenores da cena lírica mundial.
Bellini, Donizetti, Gounod, Offenbach e Verdi são compositores cujas obras se ouvem frequentemente na capital francesa, mas o vasto programa trouxe ainda a Paris obras aí menos ouvidas de nomes consagrados da zarzuela, como Chapì, Giménez, Lara, Luna, Serrano ou Soutullo e Vert.
O mais relevante foi poder apreciar a compostura, o rigor, a competência e o virtuosismo dos jovens instrumentistas da orquestra nesse programa ambicioso e vasto. Justamente porque se trata de uma orquestra que emerge da razão de ser e das finalidades de uma organização sem fins lucrativos, igualmente denominada Sinfonia por el Peru, cuja missão é educar e formar musicalmente crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, trabalhando para lhes dar competências para a vida e para o seu desenvolvimento integral.
Na base deste trabalho está a convicção profunda quanto ao poder transformador da música como agente de mudança social, a crença nas suas potencialidades não apenas artísticas, mas também para a interiorização de hábitos de trabalho e de disciplina, de valores necessários à cidadania plena e ao desenvolvimento integral de qualquer criança ou jovem.
E o resultado esteve abundantemente à vista nesse concerto na Grande Sala Pierre Boulez da prestigiada e prestigiante Philarmonie de Paris.
Dá grande gosto ver vibrantemente aplaudidos, por um público esclarecido e apreciador, jovens instrumentistas, elegantemente vestidos, que se não tivessem tido nas suas vidas a oportunidade educativa criada por esta Organização peruana, poderiam estar enredados nas malhas sufocantes da pobreza, da droga, da violência, da marginalidade.
Gosto ainda maior é saber que esta Orquestra é apenas uma amostra do trabalho desta Organização presidida – certamente com grande orgulho – por Juan Diego Flórez, uma vez que a sua obra abrange milhares de jovens nos vários núcleos espalhados pelo Perú.
É justo recordar que esta Organização é uma das que emergiram de outra que lhes foi matricial na América do Sul: a Fundação do Estado para o Sistema Nacional das Orquestras Juvenis e Infantis, vulgo El Sistema, criação notável de José António Abreu, economista, pianista, organista e cravista, além de político venezuelano. O sucesso de El Sistema na educação musical e formação artística de milhares de crianças e jovens desfavorecidos e socialmente vulneráveis, corporizado nessa estrela planetária da Grande Música que é hoje o Maestro Gustavo Dudamel, serviu de estímulo para a criação e dinamização de organizações congéneres e afins, dentre as quais a Sinfonia por el Peru.
Obras como estas constituem a lição irrefutável de que a miséria e a vulnerabilidade social não constituem fatalmente penas perpétuas. Podem ser contornadas e ultrapassadas por oportunidades reais de educação e formação, em especial pela educação artística, capaz de actuar como factor concreto e decisivo de mobilidade social.
Constituem, em suma, a prova de que a educação pela Música é um poderoso agente contra o preconceito.
Jurista














