O Lobo e a Lebre : o desafio como caminho para a evolução – Por Clara Boavista

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De uma maneira ou de outra, não fomos indiferentes à tempestade Martinho que, há poucos dias, nos provocou sobressalto e nos fez refletir sobre o quão pequenos nos podemos tornar face à desmesurada força da Mãe Natureza.

Tememos quanto à nossa segurança e a dos nossos bens, ou a dos nossos familiares mais próximos, mas, provavelmente, esquecemo-nos dos demais, daqueles que diariamente sobrevivem ao relento ou em múltiplas barracas espalhadas por todo o país.

É altura de nos despirmos da pele do lobo e pensarmos nos mais indefesos e vulneráveis, presas comuns de animais possantes, cujo comportamento de grupo e rápida adaptação às adversidades da vida os tornam cada vez mais resilientes.

E que ninguém lhes aponte falta de inteligência, porque, ao longo dos tempos, aprenderam a defender-se, tornando-se mais fortes. A capacidade de resistência persiste, mesmo diante de precárias condições humanas.

Nos últimos dias, foram alvo de referência jornalística que, em situações adversas de sobrevivência, se sentiram nuamente expostos, tendo despertado a atenção do país com sentimentos de compaixão e de alguma preocupação. Entre tantos, estão os habitantes do bairro de Talude, em Loures, e de muitos outros bairros, miseravelmente acomodados em deploráveis barracas.

São incontáveis famílias – com muitas crianças à mistura – a viverem em condições precárias e, inúmeras vezes, desumanas, sem tampouco terem acesso a água potável e a eletricidade. Carentes de meios financeiros que lhes resolvam a sua condição, vão sobrevivendo nesta encruzilhada, entre o limo de suas habitações e variadas tempestades.

São cenários infelizes, merecedores de um olhar atento e de políticas públicas eficazes, capazes de garantir condições básicas de vida para todos os cidadãos.

Algumas vezes, a questão se resume a um jogo de pontapés, onde se atira o problema – lançado com muita força – para muito longe, onde, futuramente, se disputará o recorrente jogo da Responsabilidade.

Por tanto, há que vestirmos a pele da lebre, encontrando, definitivamente, as estratégias realistas e os meios para alcançar os objetivos, isto é, soluções para proteger os mais desamparados.

Educar para evitar que as pessoas tenham de viver em barracas, tornando-as vulneráveis, exige um conjunto de estratégias focadas na consciencialização, na prevenção e na criação de oportunidades.

Neste contexto, a Escola tem um papel preponderante quanto à capacitação das comunidades, de modo a gerar oportunidades de emprego e rendimentos. É igualmente importante um adequado planeamento familiar, prevenindo ciclos de pobreza, e incentivar o empreendedorismo como alternativa para gerar recursos.

Romper ciclos de pobreza e exclusão carece de indivíduos conscientes da sua condição social e com vontade de os transformar. A Educação é uma ferramenta poderosa para a emancipação social, de modo a quebrar esses ciclos de pobreza e garantir que mais pessoas possam ter acesso a habitações dignas e seguras.

Seremos expectantes quanto aos desafios dos lobos face às lebres, na esperança de que os primeiros possam ser sempre catalisadores da evolução, impulsionando às lebres o seu crescimento e concedendo a ajuda necessária para que ultrapassem as suas dificuldades com perseverança e dignidade.

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