Vinte anos de debate livre no Clube dos Pensadores com a presença de Ângelo Correia

O Clube dos Pensadores celebrou duas décadas de existência com um debate protagonizado por Ângelo Correia em Vila Nova de Gaia. O fórum, fundado por Joaquim Jorge, assinalou a sua 151.ª sessão com uma reflexão sobre geopolítica e cidadania.

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O Clube dos Pensadores (CdP) completou vinte anos de atividade contínua, celebrando a efeméride com a sua 151.ª sessão, na passada sexta-feira. Fundado por Joaquim Jorge, o fórum atingiu um percurso que contabiliza a passagem de mais de 15 mil pessoas pelas suas iniciativas. Durante a abertura da sessão, o fundador destacou o caráter voluntário e independente da organização, que sobrevive sem subvenções estatais, focando-se no “serviço público” e na “liberdade de expressão”.

A importância institucional do aniversário foi corroborada pela leitura de mensagens oficiais. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, enviou uma missiva classificando a trajetória do clube como uma “obra notável”. Por sua vez, o Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, descreveu o CdP como uma “casa de liberdade, de pensamento, de tolerância e de alguma polémica”, sublinhando que o espaço funciona como um contraponto à desinformação das redes sociais.

A visão de Ângelo Correia sobre a coesão social

O convidado de honra, Ângelo Correia, antigo Ministro da Administração Interna e figura histórica do PPD/PSD, iniciou a sua intervenção focando-se na “maturidade” dos vinte anos do projeto. O orador identificou o isolamento e o individualismo como os problemas mais graves das sociedades contemporâneas do século XXI.

Casa cheia com uma plateia plena de atenção. Foto de SÔ-RUI/OCIDADÃO

Para Ângelo Correia, o Clube dos Pensadores atua como um sistema gregário que combate a solidão humana através da criação de unidades de confiança básica. Conforme afirmou, “O elemento nuclear de um sistema político é a confiança. Quer dizer, quando eu, para decidir, sou representado por um senhor preciso de ter confiança, porque senão não acredito que ele me representa”. O orador definiu o clube como um local neutral do ponto de vista financeiro e partidário, mas afirmativo na vertente cultural.

O balanço geopolítico de perdas e ganhos no Médio Oriente

Instado a comentar a situação no Médio Oriente, Ângelo Correia apresentou uma análise sobre o conflito entre Israel e o Irão, descrevendo-o como uma guerra onde “todos perdem”. Na sua ótica, os Estados Unidos da América registam uma perda de confiança por parte dos países árabes, que esperavam uma proteção mais efetiva no terreno e não apenas a venda de equipamento militar.

Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, António Tavares, presente e ativo na interpelação à mesa. Foto de SÔ-RUI/OCIDADÃO

Relativamente a Israel, o orador expressou admiração pelo povo judaico, mas notou que a sua segurança foi fragilizada. “Israel perdeu uma coisa. O espaço foi violado várias vezes. Percebeu-se que aquele Iron Dome tem buracos. Parece um queijo suíço”. Sobre o Irão, destacou que, apesar da destruição de infraestruturas de defesa e comando, o regime obteve uma vitória de resiliência e ganhou tempo interno face a possíveis revoltas populares.

A Europa face ao risco da musealização

O debate evoluiu para o papel da União Europeia no contexto global. Ângelo Correia manifestou um pessimismo acentuado, defendendo que a Europa corre o risco de se tornar um “museu” caso não estabeleça uma política externa e de defesa comum. O antigo ministro criticou a dependência excessiva da NATO e a proliferação de doutrinas que, na sua visão, fragmentam a sociedade europeia.

Evento em evidência nos vários órgãos da comunicação social. Foto de SÔ-RUI/OCIDADÃO

No capítulo energético, a crítica incidiu sobre as políticas ambientais de Bruxelas. O orador classificou como “loucura” o custo das energias renováveis e a antecipação de metas ambientais por parte de Portugal. “A Europa contribui para a poluição com 6,9% do PIB.  Para que é que nós queremos fazer coisas que ficam muito mais caras quando a nossa contribuição não adianta nada?”. Defendeu, em alternativa, a necessidade de manter backups estáveis, como as centrais de gás natural, para evitar apagões perante a intermitência das fontes renováveis.

Diagnóstico à política portuguesa e à máquina do Estado

Joaquim Jorge e Ângelo Correia convergiram na análise crítica às instituições nacionais. O fundador do CdP identificou a classe política como o maior entrave ao país, alegando uma perda de espessura intelectual e a promoção da mediocridade. Joaquim Jorge salientou ainda a falta de capacidade de escuta dos governantes, afirmando, “Têm uma boca e dois ouvidos. Só falam, não ouvem”.

Convergência nas críticas e opiniões. Foto de SÔ-RUI/OCIDADÃO

Ângelo Correia reforçou este diagnóstico ao apontar a máquina do Estado como o principal inimigo de qualquer reforma. Segundo o orador, o sistema legislativo português está assente na suspeição e na penalização, o que inibe a ação dos técnicos e trava o desenvolvimento económico. “Hoje em dia ser político não é ser um reformista. É ser um gestor do imobilismo”, concluiu.

O valor do reconhecimento e o futuro do Clube

O encerramento da sessão foi pautado por notas pessoais e pela reafirmação da missão do CdP. Joaquim Jorge expressou o seu cansaço face às dificuldades de organizar o evento sem apoios, mas reiterou o gosto em estar com as pessoas e promover o debate direto. Ângelo Correia incentivou a continuidade do projeto, argumentando que a obra pertence a todos os que participam e que o reconhecimento social é a base do trabalho voluntário.

Celebração. Que venham mais 20 anos! Foto de SÔ-RUI/OCIDADÃO

O evento terminou com a celebração festiva, com bolo, espumante e parabéns, incluindo a presença da família do fundador, simbolizando a ligação entre a cidadania e os afetos pessoais. O Clube dos Pensadores reafirmou-se, assim, como um espaço de pensamento para a ação, mantendo a sua relevância no panorama social do Norte de Portugal.

OC/RPC

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