Viatura de marca incógnita – Por Miguel Correia

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Nos meus tempos áureos da juventude, ansiava fervorosamente pela idade legal de conduzir. O meu pai, contrariando a legislação, deixava-me agarrar o volante nas ruas menos movimentadas, mesmo antes de poder realizar a inscrição na escola de condução.

É claro que nunca fui um Ayrton Senna e já me contentava em não deixar o carro ir abaixo ou manter os espelhos retrovisores intactos! O Opel Corsa, com alguns aninhos, foi a minha rampa de lançamento e, mesmo com o passar dos anos, apenas entregou a alma ao criador por culpa dos malditos ecologistas que retiraram o chumbo à gasolina.

Igual sorte teve um vizinho, proprietário de um Ford Cortina, com quase meio século de vida! Bastava sair da garagem para garantir uma pequena multidão em seu redor! Porém, nada na vida é eterno e os sacanas dos ecologistas voltaram a atacar e destruíram os modelos desportivos, pelos quais todos nós suspirávamos. Desde Opel Calibra, Volkswagen Polo G40, Lancia Delta, etc. Verdadeiros devoradores de combustível, mas que faziam rodar alguns pescoços quando passavam…

Como a minha carteira tem fundo, sempre fui educado a manter e preservar aquilo que consigo comprar. Razão pela qual, ainda conduzo uma viatura de 1999 – século passado, é verdade. Porém, os tempos mudaram e já ninguém aprecia antiguidades fora do museu, principalmente as oficinas da própria marca! Sou um acérrimo defensor da teoria das duas entradas na oficina: a principal, para viaturas até 10 anos e a dos fundos, para proprietários que insistem em manter o seu pedaço de sucata.

O serviço seria efectuado por mecânicos na reforma, uma vez que são os únicos a perceber a mecânica daquela altura. Muitos dos técnicos (nova designação para mecânicos que não sujam as mãos) nem sequer eram projecto quando a minha viatura foi produzida! Isto para vos dizer que esta semana recorri aos serviços da Volvo e, para meu espanto, fui informado que não há peças de substituição. Se a avaria permite que o carro ande, menos mal. É avançar, porque Deus protege! Descobri, desta forma, que a minha viatura, apesar de ostentar o símbolo Volvo, é considerado carro de marca incógnita e, quem sabe, motivo de chacota pelos técnicos de bata branca.

Afinal, foi a merecida recompensa por, num gesto de provocação, ter entrado com a relíquia pela porta principal.

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