União Europeia e Diplomacia da Hipocrisia: Dois Pesos e Dois Massacres – Por Amadeu Ricardo

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A União Europeia (UE) gosta de se apresentar como a guardiã dos direitos humanos, a defensora da soberania dos povos e a fiadora da ordem internacional. Mas, como um velho aristocrata decadente, ostenta a fachada da moralidade enquanto o seu castelo de valores cai. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a UE respondeu com fúria: sanções, envio de armas, financiamento irrestrito a Kiev. Mas quando Israel massacra Gaza impiedosamente, a Europa reage com um teatro de lamentações, declarações insípidas e uma subserviência humilhante.

A incoerência é grotesca. A UE, que tanto clama pela soberania ucraniana, ignora completamente o direito dos palestinos à sua própria terra e segurança. A Rússia é punida pela sua ocupação; Israel é premiado com acordos comerciais e diplomáticos. A guerra na Ucrânia merece as primeiras páginas diárias, gritos de indignação e a mobilização internacional; já o genocídio em Gaza recebe uma chuva de eufemismos, pedidos tímidos de “contenção” e um silêncio cúmplice diante dos crimes de guerra que são evidentes.

E então, aparecem os porta-vozes da hipocrisia, os senhores da diplomacia vazia, e os mestres da indignação seletiva.
Tom Fletcher – O Humanitarismo Covarde da ONU
O subsecretário para os Assuntos Humanitários da ONU, Tom Fletcher, declara:
“Mais uma vez, o povo de Gaza vive num medo abjeto. Os modestos ganhos obtidos durante o cessar-fogo estão a ser destruídos.”

E o que faz a ONU ?
Nada. Como sempre. A organização que deveria garantir a paz no mundo tornou-se numa instituição burocrática irrelevante, cuja a única função é emitir comunicados lamentando os massacres que nunca impedirá. Fletcher chora pelo “medo abjeto” dos palestinos, mas a ONU continua incapaz de impor sanções a Israel, de fazer valer as resoluções que condenam a ocupação, de proteger um povo que vive sob o apartheid há décadas. Os “modestos ganhos do cessar-fogo” isto é uma piada demasiado cruel: a ONU a tratar cada breve pausa no bombardeamento como uma conquista, enquanto o genocídio continua a céu aberto.

Kaja Kallas – A Europa e a sua Indignação de Papelão
A Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, proclama:
“A UE deplora a quebra do cessar-fogo em Gaza e a morte de civis, incluindo crianças, em bombardeamentos Israelitas.”

Deplora”. A palavra mágica da hipocrisia europeia. Quando a Rússia bombardeia a Ucrânia, a UE impõe sanções e envia caças F-16. Quando Israel destrói bairros inteiros em Gaza, a Europa “deplora” e continua a assinar acordos de cooperação com Tel Aviv. Kallas não condena, não exige punições, não ameaça cortar laços económicos ou diplomáticos. Apenas “deplora”.

A UE não hesitou em isolar a Rússia da economia global, mas quando Israel comete crimes de guerra, a única resposta é um murmúrio patético.
António Costa – O Lamento Inútil da Liderança Europeia
O Presidente do Conselho Europeu, António Costa, declara:
“Chocado e triste com as notícias que nos chegam de Gaza e com as muitas vítimas civis na sequência dos ataques aéreos Israelitas.”
Costa está “chocado”. Que surpresa!

A Europa, que assiste a cada massacre Israelita com aquela previsibilidade de um ritual, continua a olhar para o lado e a a fingir espanto de cada vez que os civis palestinos são massacrados. Mas para que serve a indignação de Costa se não vem acompanhada de ações concretas. Nenhuma proposta de sanções, nenhuma suspensão dos acordos comerciais, nenhum corte de relações diplomáticas. Apenas o velho teatro da tristeza conveniente, uma indignação seletiva que nunca se vai traduzir em consequências reais.

O Cinismo Europeu Tem um Preço

A União Europeia demonstra, mais uma vez, que os seus “valores” não são nada além de instrumentos geopolíticos flexíveis. A soberania dos povos só é importante quando serve aos interesses de Bruxelas. O direito internacional só deve ser aplicado contra os inimigos convenientes. A defesa dos direitos humanos é apenas uma peça retórica, usada quando conveniente e descartada quando for politicamente incômoda.

O preço desta hipocrisia é alto. A Europa, outrora um modelo de diplomacia e direitos humanos, tornou-se uma caricatura de si própria. A sua voz não tem peso moral, as suas promessas deixaram de ter credibilidade. Quando lamenta Gaza sem agir, a UE torna-se cúmplice. Quando ignora a Palestina enquanto arma a Ucrânia, demonstra que os seus princípios são mercadoria de ocasião.

E a União Europeia, com os seus líderes de papelão e a sua diplomacia constituída por covardes, será lembrada como o bloco que teve a chance de defender a justiça – mas escolheu curvar-se à conveniência.

Enquanto isso, o massacre em Gaza continua, assim como a guerra na Ucrânia. Mas a história tem boa memória: um dia, os gritos dos mortos da Palestina ecoarão nos corredores em Bruxelas, para nos lembrar a todos que a hipocrisia também é uma forma de cumplicidade.

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