Missão Impossível – Atravessar Matosinhos sem recurso a Foguete

Mais artigos

Há uma injustiça histórica que importa corrigir. Enquanto um punhado de astronautas
decidiu, com louvável espírito de aventura, ir passear até à Lua, nós, simples mortais,
continuamos presos no verdadeiro teste de resistência humana, atravessar Matosinhos.

Convém sublinhar que missões como as do programa Artemis, levadas a cabo pela
NASA, demonstram que a humanidade é capaz de feitos extraordinários. Enviar
pessoas para centenas de milhares de quilómetros de distância, fazê-las regressar em
segurança e ainda trazer provas científicas e, claro, conteúdo altamente partilhável para
o Instagram da NASA. Tudo isto recorrendo, entre outras maravilhas tecnológicas, ao
imponente Space Launch System, ou, como poderíamos começar a chamar-lhe em
Matosinhos, “o transporte público alternativo”.


Porque, sejamos honestos, há dias em que apanhar trânsito na Circunvalação, em
Matosinhos Sul, ou tentar chegar a Leça da Palmeira exige mais preparação do que
uma missão espacial.

Falta-nos apenas o fato pressurizado para aguentar o ambiente
hostil e um centro de controlo a dizer: “Pode avançar três metros, com cautela.”
Aliás, não deixa de ser curioso que os astronautas tenham escolhido a Lua, um sítio
conhecido por não ter trânsito, semáforos nem rotundas criativas. Uma decisão
claramente estratégica. Se tivessem tentado aterrar em Matosinhos, provavelmente
ainda estariam em órbita, à espera de vaga para estacionar.

É aqui que entra o génio incompreendido do Space Launch System. Um foguete capaz
de escapar à gravidade terrestre em poucos minutos seria, muito provavelmente, a
solução ideal para sair de casa, ir buscar pão e regressar antes que o semáforo da
Circunvalação mudasse de cor. Em vez de “horas de ponta”, passaríamos a ter
“segundos de ignição”. E convenhamos: “vou ali de SLS e já venho” tem um encanto
futurista que o autocarro nunca conseguiu alcançar.

Mas talvez o problema não seja apenas tecnológico. É também filosófico, o que, em
Matosinhos, costuma ser ainda mais difícil de resolver. Talvez seja preciso repensar a
cidade com a mesma ousadia com que se planeiam missões espaciais. E aqui proponho
uma medida simples, inspirada nos bons velhos tempos da função pública: por cada
dois carros que saem à rua, entra apenas um. Uma espécie de seleção natural
rodoviária, mas com mais burocracia e menos misericórdia.

Imaginem o impacto: ruas mais vazias, condutores menos desesperados e uma súbita
valorização de meios de transporte alternativos, como andar a pé, bicicleta ou, claro,
foguetes. Eventualmente, poderíamos até criar faixas exclusivas para o Space Launch
System, com prioridade nas rotundas e estacionamento gratuito, porque há limites para
a injustiça.

No fundo, talvez os astronautas não tenham ido à Lua apenas por curiosidade científica.
Talvez tenham ido porque perceberam, antes de todos nós, que o verdadeiro desafio
não é só chegar lá é também conseguir sair.

E, nesse caso, não os podemos culpar. Afinal, entre o vazio silencioso do espaço e o
caos perfeitamente organizado do trânsito em Matosinhos, a escolha não só é
compreensível, é praticamente inevitável.

image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img