Vivemos socialmente obcecados pelo sucesso, por isso nunca nos ensinam a cair. Cresci numa bolha de privilégio e posso dizer que toda a minha (até agora, pequena) história tem sido feita de conquistas. Mas posso também dizer que todas essas conquistas vieram de um lugar que cisma associar o sucesso à sensação de permanente sacrifício, alimentada por esta ideia de que é necessário um esforço desmesurado, para que a recompensa seja merecida.
Somos educados a não falhar, por isso nunca aprendemos o valor da falha: é tabu falar sobre o que não correu bem, o que escolhemos deixar a meio ou o que fomos incapazes de levar até ao fim. Importa mais saber disfarçar a queda, mantê-la discreta, calada e escondida, mesmo que as pernas estejam frágeis e se tenha tornado impossível andar.
Fazem o mundo girar ao ritmo da produtividade – não da criatividade – e neste sádico lugar tem de se viver na mesma cadência que a economia exige produzir. Empurram-nos continuamente para a frente, mas é urgente saber parar.
Há um tempo contado – não sei bem porquê, nem por quem – que nos é dado para aprender e, depois, dão-nos uma frincha bem estreitinha para pensar sobre o que queremos fazer com aquilo que aprendemos. Mas o tempo é escasso e chegada a idade adulta o relógio para, fecha-se a janela, já não passa mais ar para arejar as ideias e temos de estagnar na certeza daquilo que vamos fazer, agora que já somos grandes.
Chamam resiliência à exaustão e alimentam o medo (medo do erro, da insuficiência – a insegurança), porque enquanto estiverem agarradas ao pânico, as mãos não estarão livres para tentar. Querem-se mãos úteis, certas e eficazes, com poucos pontos de interrogação. O verbo fracassar não tem conjugação nos discursos motivacionais, pois não cabe naquilo que concebem de “a nossa melhor versão”. Esqueceram-se foi que a nossa melhor versão é uma versão cheia de falhas, cabem desde gralhas a erros crassos e tudo o resto também. Por isso, deixo aqui um brinde: às manhãs “desperdiçadas” porque não conseguimos sair da cama, à tarefa que ficou incompleta na agenda, ao exame que foi feito à segunda, à data de entrega falhada, ao emprego perdido porque a entrevista correu mal, ao curriculum que está a ser construído sem pressa, aos projetos inacabados, às coisas que dissemos e não devíamos ter dito, às que não dissemos e deviam ter sido ditas, às pessoas que, por muito que quiséssemos, não conseguimos manter, às relações fracassadas, às amizades perdidas, aos dias sobre os quais nada temos para contar.
É importante valorizar o percurso imperfeito, porque o fracasso é alavanca para começar outra vez. E começar outra vez é dar oportunidade para que exista um recomeço com mais conhecimento, mais atenção, mais maturidade; com mais verdade.
Abraçar o fracasso é um ato de resistência contra a imposição de expectativas (as alheias e as que, pela pressão, se tornaram nossas) e, ao mesmo tempo, um impulso para crescer. Que todas as mãos sejam capazes de desenhar muitos pontos de interrogação em torno das linhas retas que insistem, à pressa, fazer-nos decalcar. Como sempre ouvi dizer, errar é humano.
Estudante






