Um panteão numa qualquer capital europeia com vista para um rio refulgente como peixe de escamas ao léu. Um panteão como coleção de cromos, um tanto de instrumento político, distração de assunto, um salão de festas para os privilegiados CEO’s do mundo, um museu de mármore e cal para turista ver e imaginar aqueles que nada lhe dizem. Descobriu o quê? Da aldeia de onde…? Qual será o intuito de um panteão? Sacar as referências históricas que fazem dos lugares os lugares e celebrá-los num único silêncio? Será uma reflexão de sinaléticas em peso de nomes, datas e outroras?
Acresce a tudo isto, lá no cimo, um terraço largo, amplo, de balcão para a luz, numa receita de branco e limpo para que se inspirem as visitas, vão confiar que um dia lá chegam? Para grandes honras, imprescindíveis amigos, não? Contai, por isso, com nada além da própria vista. E se assim se faz um panteão, porque não dois?
Vejamos: Dois panteões dariam maior vasão aos argumentos a favor da descentralização. Um a sul, outro a norte? Além disso, parece-me uma boa oportunidade para enriquecer os gabinetes de arquitetura que sempre ganham os concursos públicos, fomentando a economia circular. (Será esta a definição de “economia circular”? Fica tudo nos bolsos dos mesmos? Nas mesmíssimas mãos? Circulam os bens entre os primos?) Acresce ainda o facto de se poderem escoar, com maior celeridade, os cemitérios que vão dominando a paisagem do proletariado fisgado num descontito do IMI¹. Tudo e demais vantagens.
Pensem comigo… Um novo panteão representaria também o fim do monopólio do anterior. Um aqui, outro acolá e vai que sobra espaço para uns tantos ao centro do país. Só para desconhecidos panteonáveis, para aqueles que verdadeiramente contribuíram pela calada, que ficaram na sombra. Que tal uma cadeia de panteões? Entenda-se por “cadeia”, uma linha de (ao oposto de um instituto prisional – embora um panteão não passe de uma cadeia para o físico, de uma prisão para as carnes). Bem estudado, liberalizavam-se os panteões e surgiria (quase aposto) um novo modelo de negócio baseado nos Holiday-Inn’s – os Pantheon-Inn’s. Os mortos até que não se importam que lhes chupemos os ossos, importam? (Já repararam na moda de editar manuscritos inacabados de autores acabados?)
Desta forma, cada panteão contribuiria para a diminuição dos números do desemprego. Por outro lado, quem ficasse para trás, teria como se distrair do incómodo da renda, da comida e da luz. Então, não é que x foi parar a y panteão? Com guarda a cavalo e escolta de canhões. Viste? Vamos visitá-lo? Acredito que vários panteões serviriam melhor um país, dado que haveria motivos continuados de celebração. Aliás, mais ditos-cujos teriam a chance de confraternizar na outra margem da vida (ou da morte?) com gentes da sua laia, do seu mais elevado gabarito. Quem recusaria um túmulo qual deus egípcio com vistas para o Nilo?
¹ Imposto Municipal sobre Imóveis.
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