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Sábado, Dezembro 6, 2025

Sorry, Baby – e toda uma vida que continua

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O filme Sorry, Baby (2025), dirigido e estrelado por Eva Victor, aborda de forma profundamente sensível e singular o impacto do trauma sexual na vida de uma mulher.

A narrativa segue Agnes, uma professora universitária que, após ser vítima de agressão sexual por parte de um mentor de confiança, enfrenta as complexas e não lineares repercussões desse evento no seu quotidiano. A história é contada em cinco capítulos não cronológicos, refletindo a natureza fragmentada da recuperação do trauma — essa fragmentação temporal espelha a forma como o trauma não se encaixa num fluxo linear: vai-se, volta, rumina-se, reaparece.

O evento traumático — o que aconteceu — não é, desta vez, o centro da narrativa de um filme. Sobre isso, já muito se filmou. Está presente, claro, mas é filmado com contenção, recusando-se a dramatizar ou a explodir em choque. O ato é mostrado pela sua ausência: a câmara permanece do lado de fora, o dia escurece, Agnes sai, entra no carro e conduz. Há silêncio e vazio — e são eles que gritam mais alto do que a própria violência.

No meio desse caos, o filme não evita o humor, mas também não diminui a gravidade da mensagem. Pelo contrário: mostra-nos a vida a acontecer, tornando tudo ainda mais humano e credível.

Vemos como as relações se desenrolam — as que se mantêm e as que nascem depois do trauma. A relação com a amiga assume um papel central: é a amiga presente, que ouve, que fica ao lado. Não é uma salvadora, é quotidiana — e, por isso, é uma forma de cura.

Apesar de recusar grandes manifestações revoltosas, a crítica aos sistemas também está presente: a burocracia, os discursos vazios de “sabemos o que estás a passar”, o médico apressado, a frieza institucional, as perguntas desnecessárias.

Sorry, Baby não é um filme sobre o que aconteceu, mas sobre o que acontece depois — sobre como se vive com o que foi, como o mundo segue e como a pessoa que passou por aquilo tenta encontrar morada no seu próprio corpo e no seu próprio tempo. Agnes não se define pela vítima que foi, mas pela mulher que continua a ser — com feridas, sim, mas também com escolhas, humor, vulnerabilidade e singularidade.

A cena final, em que Agnes fala com o bebé, é talvez o momento mais redentor do filme — e o mais simples. Não há dramatismo, nem grandes perguntas metafísicas. Ela apenas diz o que é, com a serenidade possível depois de tanto silêncio. É um instante de verdade pura, despojada de explicações. Essa escolha de Eva Victor é o que torna Sorry, Baby tão especial: a redenção não vem pela catarse nem pelo perdão desta vez, mas pela aceitação tranquila de que a vida continua, imperfeita, sem respostas, mas viva.

E se há algo que o filme me deixa é esta ideia: o trauma não anula a vida, apenas a transforma — e raramente o cinema mostra isso com tanta suavidade e honestidade. Sorry, Baby é, em si, um ato de coragem, além de um filme estupendamente bonito.

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