Sozinha. Imensa. Livre. Sem pruridos. Olga Roriz em palco, treze anos depois de A Sagração da Primavera, para estrear O Salvado no Guidance – Festival Internacional de Dança, em Guimarães. Para estrear um monólogo que dialoga com o nosso interior, para nos mostrar a pele de que somos feitos – da cabeça aos pés. Para se divertir enquanto nos encosta à parede.
Olga falou e disse. Dançou e disse. Cantou, declamou e disse que o ponto de maturação de um artista começa quando se aprende a tocar cada ferida. Olga pisou os conservadores. Desligou suas leis. Recusou ter idade. Mostrou o sexo. A meio, alguém se levantou e saiu. De cara trancada, não regressou. Pensei para mim: “ora, a primeira vítima. O ‘ofendidinho’.” Olga sabe. Olga é mulher. Mulher não se despe? Mulher deve vergonhas? Mulher esconde seus prazeres? Mulher sempre se impede de envelhecer?
Mulher, ou cala ou… É Olga, virando o jogo. Interpelando-nos. Olga flutuando nosso humor. O jogo de luzes, a guitarra, o piano de Satie, seu dedo da direita para a esquerda, da esquerda para a direita que nos nega e marca o compasso, o cenário enrugado como crosta desfazendo-se, descaindo com o peso das décadas? Olga em espiral apoteótica, sentada e à roda, como a nossa confusa tentativa de libertação. Olga vertiginosa, rindo. Olga curtindo. É perante a morte que encontramos a razão da felicidade? Seremos ou não eternos? Será do cuco reafirmar-nos a existência? Haverá senão sentimentos? Isto, pergunta-nos Olga antes de sair de cena.
E regressa para uma plateia em pé. Olga agradece e faz vénias. Nós aplaudimos sua coragem solar. Ao longo de hora e meia, sua terapia de choque, abanou-nos – como é suposto toda a arte abanar (?), apontando nossas dúvidas coletivas, nossos receios milenares. E nada deu de gratuito, nada foi acaso, tudo coseu delicadamente. O respeito foi imposto por dívida soberba da parte do espectador. Ela deu-nos tudo. Ela dá tudo. A mais é obrigada? Julgo que não.
Escritor







