A estupidez deveria pagar imposto

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A vida é, em última análise, uma caixinha de surpresas — um filme de fôlego onde todos os géneros se cruzam, do drama à comédia parva.

Confesso, porém, que a minha capacidade de espanto foi posta à prova recentemente. Ao percorrer as redes sociais, deparei-me com uma petição pública que clama, sem pudor, pela proibição de conduzir para todos os cidadãos com mais de 75 anos.

Pasmem, senhoras e senhores que leem esta crónica: a que ponto chegou a aberração mental de certos indivíduos? Estamos perante cérebros iluminados por uma absoluta ausência de discernimento. Atrevo-me a dizer que a licença de condução deveria ser retirada, sim, mas a quem idealizou tamanha insensatez.

Recorramos ao rigor dos factos, que a paixão não nos deve toldar a lógica. Segundo os dados do BPstat, em 2024, existiam em Portugal cerca de 525 mil pessoas com idade superior a 75 anos. Se os acidentes rodoviários vitimam, anualmente, cerca de 500 pessoas, e se seguíssemos a “lógica” destes detractores, os idosos seriam os grandes ceifeiros das estradas. Se assim fosse, a demografia inverter-se-ia; contudo, o que vemos é precisamente o contrário: a longevidade floresce e a nossa classe etária é cada vez mais numerosa.

Neste último período pascal, a tragédia visitou as estradas, roubando 20 vidas e deixando um rasto de feridos graves. Será que a “supra-inteligência” dos mentores da petição acredita, genuinamente, que tamanha carnificina foi obra da mão trémula de um ancião? Ou terá sido, como dita a realidade, fruto da negligência e da irresponsabilidade de mãos mais jovens, mas menos prudentes?

Revolto-me. Faço-o na condição de idoso que sou, orgulhoso da lucidez que conservo do alto dos meus 82 anos. Sinto que ainda poderei dar lições de condução — e de vida — a muitos “jovens” que circulam por aí, entre a loucura e a incompetência.

Alegam estes “génios” que é inadmissível que um ou outro idoso — entre meio milhão! — entre em contramão. Esquecem-se de que a prudência não tem idade, mas a estupidez, essa sim, parece não ter limites. Valha-nos o deus da paciência, pois se a parvoíce pagasse imposto, o Estado estaria rico e as nossas estradas, certamente, mais silenciosas.

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