A procura por tratamentos farmacológicos contra a obesidade atingiu valores sem precedentes em Portugal. De acordo com os dados mais recentes da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed), divulgados pelo jornal Público, os portugueses estão a despender, do próprio bolso, cerca de 613 mil euros por dia em novos medicamentos injetáveis para a perda de peso.
O fenómeno reflete uma adesão em massa a uma nova geração de fármacos — com destaque para a entrada recente de marcas como o Wegovy e o Mounjaro no mercado nacional —, transformando o combate ao excesso de peso num mercado milionário de forte impacto social e financeiro.
Vendas em massa geram faturação de 130 milhões de euros
Os dados estatísticos oficiais indicam que as farmácias comunitárias portuguesas vendem, em média, 2.355 embalagens diárias de fármacos destinados ao tratamento da obesidade.
Estes medicamentos pertencem à classe de agonistas dos recetores de GLP-1. Originalmente desenvolvidos e indicados para o controlo da diabetes tipo 2 (como sucedeu inicialmente com o conhecido Ozempic), estes compostos ganharam uma enorme popularidade global devido à sua eficácia clínica na supressão do apetite e no consequente tratamento da obesidade.
O impacto financeiro total reflete bem a dimensão desta adesão: somando as compras feitas por todos os portugueses nas farmácias, o país gastou o valor acumulado de 130 milhões de euros na aquisição destas terapêuticas apenas nos primeiros meses do ano, superando a marca de meio milhão de embalagens vendidas no período homólogo anterior.
Tratamento individual pode custar até 340 euros por mês
Até ao momento, os medicamentos especificamente aprovados para a indicação terapêutica de perda de peso não beneficiam de qualquer tipo de comparticipação por parte do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Isto significa que o Estado não ajuda a pagar e a totalidade do encargo financeiro é assumida diretamente por cada utente.
Este custo individual constitui uma barreira significativa para o orçamento das famílias. Consoante a marca comercial prescrita e, fundamentalmente, a dose diária ou semanal indicada pelo médico, o preço que uma única pessoa tem de pagar na farmácia varia entre os 182,92 euros (para doses iniciais mais baixas) e os 337,63 euros mensais (para as doses máximas de tratamento).
Governo decide modelo de comparticipação pública
O impacto económico deste comportamento de mercado acelerou a intervenção do Ministério da Saúde. Em declarações oficiais prestadas à RTP, a secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, revelou que o Governo irá decidir a curto prazo qual o modelo e as regras para a eventual comparticipação destes fármacos no âmbito do SNS.
A decisão governamental baseia-se num equilíbrio sensível entre a saúde pública e a sustentabilidade orçamental. Estudos preliminares solicitados ao Infarmed alertaram que uma comparticipação generalizada na ordem dos 90% para a população elegível poderia traduzir-se num encargo superior a dois mil milhões de euros — um valor que ultrapassa a despesa anual total do Estado com a totalidade dos medicamentos de ambulatório em Portugal.
Por este motivo, as autoridades reguladoras, em coordenação com a Direção-Geral da Saúde (DGS), estão a desenhar um modelo assente em critérios epidemiológicos estritos e perfis clínicos de elegibilidade muito específicos, integrados no Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, garantindo que o apoio público se dirija prioritariamente a casos de obesidade grave ou associada a comorbilidades de alto risco.
Fontes oficiais consultadas:
Infarmed (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde I.P.) –
Dados estatísticos de monitorização do mercado de ambulatório e volumes de
venda de fármacos em Portugal.
Ministério da Saúde / Secretaria de Estado da Saúde – Declarações oficiais
sobre o progresso legislativo do modelo de comparticipação pública.
Associação Nacional de Farmácias (ANF) – Relatórios de mercado sobre a
introdução e o escoamento de novas terapêuticas de biológicos em território














