Portugueses disponíveis para doar fezes à ciência

Portugal lidera a nível internacional na disponibilidade para doar fezes para investigação científica sobre a microbiota. 62% dos portugueses mostram-se recetivos à doação e aos testes de microbiota, revelando maior interesse do que a média global.

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O mais recente inquérito do Observatório Internacional de Microbiotas revelou que Portugal é o país onde a população mais se mostra disponível para doar fezes para fins científicos. A recolha de dados, que envolveu 11 países, aponta que 62% dos inquiridos portugueses aceitariam participar em projetos de investigação ligados à microbiota, nutrição e saúde, superando em três pontos percentuais a média dos restantes países.

Além da abertura à doação, Portugal destaca-se também no interesse em integrar testes de microbiota nos exames de rotina. Ainda assim, o conhecimento geral sobre o tema permanece limitado: apenas 17% dos portugueses sabem exatamente o que significa “microbiota”, um valor abaixo da média dos países envolvidos no estudo (23%).

A Ana Santos Almeida, investigadora principal do Laboratório Translacional de Microbioma na Saúde e na Doença (GIMM) e professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, sublinha que a atitude da população é promissora:
“Temos aqui uma oportunidade única: estamos perante um recurso biológico acessível, não invasivo e que é uma fonte extraordinária de conhecimento. Como costumo dizer, todos os dias temos à nossa disposição fezes, um material com enorme potencial para compreender melhor a nossa saúde”, afirma.

Contudo, a investigadora aponta que o maior desafio está na manutenção de doações regulares ao longo do tempo, essenciais para investigações mais robustas. Apesar do entusiasmo, alerta também que a utilidade clínica dos testes de microbiota ainda é limitada.
“Embora alguns já utilizem tecnologias de sequenciação de alta resolução, compreendemos ainda pouco sobre como modular espécies específicas da microbiota de forma segura e eficaz, e sobre como essas alterações podem impactar todo o ecossistema intestinal”, explica.

O inquérito indica ainda que 49% dos portugueses alteraram os seus comportamentos para proteger a microbiota, valor abaixo da média global (56%). A atividade física regular (27%), a alimentação variada (26%) e a redução do consumo de alimentos processados (22%) continuam com níveis de adesão baixos em Portugal.

Segundo Ana Santos Almeida, “não basta fazer um teste fecal e conhecer a composição da nossa microbiota, se não estivermos dispostos a mudar comportamentos. Não há comprimidos milagrosos”. Considera, por isso, que é essencial reforçar a formação dos profissionais de saúde e aproximar a investigação científica da prática clínica.

O estudo foi promovido pelo Biocodex Microbiota Institute e envolveu 7500 inquéritos online realizados entre 21 de janeiro e 28 de fevereiro de 2025 em Portugal, França, Alemanha, Itália, Polónia, Finlândia, EUA, Brasil, México, China e Vietname.

OC/RPC

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