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Sábado, Dezembro 6, 2025

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O mundo parece ter esquecido o valor do compromisso.

Não estou a falar acerca da pontualidade ou de agendas que não se cumprem, mas de uma substância mais profunda. A palavra dada. Uma promessa que, quando deixamos de honrar, corrói a estrutura invisível da confiança sobre a qual toda a vida em comunidade assenta, seja ela pessoal, profissional e humana.

Talvez me sinta mais sensível a isto porque vivo num tempo em que tudo é urgente e, paradoxalmente, tudo é também descartável.

O compromisso exige permanência e, hoje, quase ninguém quer permanecer. Exige coerência e a coerência é um fardo num mundo que vive de conveniências. Exige presença, mas estamos sempre a meio caminho entre o aqui e agora, e o ecrã.

O resultado é que as pessoas aparecem menos e prometem, prometem uma e outra vez, prometem mais e cumprem cada vez menos. E neste momento, todos achamos normal. Pensando bem, é assustador.

E tenho pensado muito sobre o que leva alguém a quebrar um compromisso como quem cancela uma notificação de uma qualquer app. Talvez seja porque o tempo do outro deixou de ter peso, porque o valor da reciprocidade se dissolveu num mar de urgências a título individual. Talvez porque o respeito se tornou uma moeda em desuso, daquelas que se guardam num bolso por hábito ou como totem, mas que na verdade, já não servem para nada.

Para mim, o compromisso é uma forma de amor.

É a capacidade de dizer “estou” e, de facto, estar. É dizer “conto contigo” e poder fazê-lo sem receio de uma possível falha. É saber que o outro respeita o meu tempo tanto quanto o seu. No trabalho, no ensino, nos negócios, é o compromisso que sustenta tudo o que não pode ser medido em relatórios. O respeito mútuo, a confiança, a seriedade. A falta dele destrói relações, reputações, equipas. Porque não há talento que sobreviva à falta de palavra.

A falta de compromisso não é simplesmente um problema de educação, é um sintoma de desordem interior.

Quando alguém já não sente a responsabilidade de cumprir com o outro, é porque já perdeu o respeito por si mesmo. Porque quem se respeita, cumpre. Simples. Quem tem uma ética interna sólida não precisa que estejam a recordar do que prometeu, porque a promessa é com ele antes de ser com o mundo.

Hoje, mais do que nunca, penso que o compromisso é espelho do caráter. E talvez, infelizmente, o mundo esteja, de facto, a perder o sentido do compromisso. Mas o compromisso, quando é verdadeiro, nunca depende do mundo. Depende da consciência. Depende de cada um de nós, e da coragem de continuarmos a ser íntegros.

O compromisso é, e sempre será, a mais nobre forma de dizer ao mundo que ainda acreditamos no valor da palavra.

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