Pela Memória, Pela Responsabilidade, Pela Esperança – Por Alexandra Serra

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No dia 3 de setembro de 2025, Lisboa foi abalada por uma tragédia que ficará gravada na memória coletiva: o descarrilamento do Elevador da Glória, que ceifou 17 vidas e feriu outras 21 pessoas. Entre as vítimas estavam portugueses e estrangeiros, trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia, turistas, famílias inteiras. Gente. Pessoas com histórias, sonhos, rotinas. Não números.

O país chorou. Mas como tantas vezes acontece, o luto foi rapidamente invadido por discursos políticos, por aproveitamentos mediáticos, por promessas que já ouvimos antes. E é aqui que devemos parar. Parar para exigir que esta dor não seja instrumentalizada. Que não se transforme em palco para protagonismos. Que se respeite o silêncio das famílias, a dignidade dos que partiram, e a angústia dos que ficaram.

Um verão em cinzas

Este verão foi cruel. Os incêndios voltaram a consumir o coração do país, com mais de 250 mil hectares ardidos. Pedrógão Grande, oito anos depois da tragédia de 2017, voltou a ser cercado pelas chamas. Aldeias evacuadas, casas destruídas, vidas suspensas. E mais uma vez, ouvimos que “não há mão criminosa confirmada”, que “os meios foram suficientes”, que “a situação está controlada”. Mas não está. Não está quando há populações que vivem com medo de cada rajada de vento quente. Não está quando há autarcas que exigem mais vigilância e investigação e não são ouvidos.

Pontes Que Caem, Confiança Que Desaba

A queda da Ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, em 2001, matou 59 pessoas. Vinte e quatro anos depois, ainda é símbolo da falta de responsabilização. Houve demissões, houve julgamentos, mas não houve justiça plena. E agora, com o acidente do Elevador da Glória, voltamos a perguntar: como confiar nas inspeções feitas ao Elevador da Bica, do Lavra, da Graça? Como confiar na segurança da Ponte 25 de Abril, ou de qualquer infraestrutura pública, quando sabemos que há contratos de manutenção externalizados, denúncias ignoradas, relatórios que não são públicos?

A empatia que se desgasta

A televisão mostra, repete, dramatiza. Imagens de corpos, de chamas, de lágrimas. E com o tempo, a dor alheia torna-se ruído. A empatia desgasta-se. As pessoas deixam de sentir. Não por maldade, mas por exaustão. E isso é perigoso. Porque quando deixamos de sentir, deixamos de exigir. Deixamos de cuidar uns dos outros.

Saúde, Educação, Habitação: Um país em Falência Social

O Serviço Nacional de Saúde está em colapso. Faltam médicos, faltam enfermeiros, faltam respostas. As urgências estão sobrelotadas, os profissionais esgotados. Na educação, milhares de alunos começaram o ano sem professores. Crianças com necessidades especiais continuam sem apoio. E quem vive do salário de uma profissão honesta vê-se empurrado para a periferia, para quartos partilhados, para rendas impossíveis.

A crise habitacional não é apenas uma questão de mercado. É uma questão de dignidade. De justiça. De futuro.

 Basta. É tempo de união

Não queremos mais demissões simbólicas. Queremos responsabilização real. Queremos rigor nas inspeções, transparência nos contratos, competência na gestão pública. Queremos que os governantes deixem de ver as pessoas como números em relatórios. Que olhem para cada vítima como alguém que tinha nome, família, sonhos.

Este país precisa de união. De um pacto de respeito mútuo. De uma exigência coletiva por mais humanidade, mais verdade, mais ação.

Porque cada vida conta. E cada tragédia que não nos transforma, repete-se.


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