Na actualidade, quase ninguém pensa em Pablo Picasso como um imigrante espanhol que foi para Paris, a Meca das Artes, em 1904, à procura de mundo e de sucesso. O malaguenho Picasso estava longe, muito longe, nesse tempo, de poder comprar um castelo, como muitos anos mais tarde viria a fazer, fazendo seu o castelo de Vauvernargues, no sul de França, em cujos jardins repousam agora os seus restos mortais e os da sua última mulher, Jacqueline.
Em Paris, na altura, teve a sorte de poder contar com a generosidade do seu amigo Max Jacob que se dispôs a partilhar com Picasso o seu minúsculo compartimento num conjunto edificado decrépito, numa rua íngreme de Montmartre, conhecido como Bateau-Lavoir.
Nessa antiga fábrica de pianos, compartimentada em pequenos cubículos que serviam de alojamento e de ateliê, instalaram-se precariamente vários imigrantes espanhóis e italianos que, como Picasso, tinham vindo tentar a sua sorte, na busca da fama como artistas plásticos ou como escritores, na então capital do mundo.
As condições de vida no Bateau-Lavoir eram pouco mais do que miseráveis e, se não fosse a existência de um tecto, pouco mais seriam do que as dos actuais sem abrigo. As rendas eram baixas, mas altas para quem não tinha vintém (sans un sou).
Pablo Picasso e Max Jacob partilhavam no seu quartito o único enxergão aí existente, dormindo por turnos. Enquanto um dormia, o outro pintava ou escrevia, consoante o caso. Foi lá que Picasso criou as obras do Período Azul e algumas do Período Rosa.
Depois de Picasso, outros artistas imigrantes encontraram poiso e abrigo no Bateau-Lavoir. Um deles foi o também espanhol Juan Gris que, a par de Picasso e de Georges Braque lançou o Cubismo e revolucionou a Arte Moderna.
Outro, o italiano Amedeo Modigliani que encontrou na Arte Africana em museus de Paris a inspiração para criar as suas singulares esculturas e as suas melancólicas figuras de pescoços longos.
Muitos anos antes de se ter tornado o dandi nas praias francesa da moda, com uma rica clientela fiel, o holandês Kees Van Dongen experimentou a miséria no Bateau-Lavoir, alimentando-se apenas de espinafres durante vários meses. O russo/lituano Chaïm Soutine também lá viveu durante anos sem papeis, ou seja, sem documentos de identidade e autorização de residência.
Anos mais tarde, quando a geografia das Artes em Paris se deslocou de Montmartre para Montparnasse, a existência miserável destes e outros artistas imigrantes prosseguiu noutras instalações igualmente precárias, expressivamente designadas A Colmeia (La Ruche), resultantes do aproveitamento de antigos pavilhões da Exposição Universal de 1900.
Sofria-se intensamente por lá com os excessos do clima, com as infiltrações da chuva, do vento e de toda a espécie de bicharada, com a falta de instalações sanitárias e, sobretudo, com a falta de dinheiro para fugir à situação.
Modigliani e Soutine rodeavam de cinza os seus enxergões para afastar os assaltos de ratos e percevejos. O russo Marc Chagall usava para pintar pano de lençol ou de camisas que recuperava ou comprava na Feira da Ladra local (Marché aux puces).
A pobreza não impediu estes artistas imigrantes de se integrarem bem na famosa vida boémia parisiense, sem excluir ocasionais excessos como a libertinagem, as drogas e o álcool, a delinquência encoberta e a violência.
O que se designa por Arte Moderna e por Escola de Paris é, pois, em importante parte, o resultado da coragem, ousadia e criatividade de imigrantes, provenientes de diversas origens, diversas confissões religiosas e diversas origens étnicas, que conseguiram sobreviver às dificuldades (fome, doenças) e à pobreza.
Não o teriam conseguido se a sua vida e permanência em Paris tivesse sido obstaculizada pelas leis, pelo governo e pelas autoridades policiais, com o encarniçamento e o ódio ao diferente, ao estrangeiro, ao aparentemente ocioso, improdutivo (e, por isso, visto como potencialmente perigoso), que se observa e pratica na actualidade em alguns países da Europa, entre os quais Portugal.
Se os imigrantes Picasso, Gris, Modigliani, Van Dongen, Soutine e Chagall tivessem sido expulsos e repatriados pelas autoridades francesas, como indesejáveis, dificilmente a Arte Moderna teria sido como a conhecemos.
Jurista







