Pacheco Pereira abordou obra de Orwell e liberdade de expressão no El Corte Inglés de Gaia

Numa sessão intensa e profundamente atual, José Pacheco Pereira analisou a obra de George Orwell como ponto de partida para uma reflexão crítica sobre os perigos que ameaçam a liberdade de expressão no mundo contemporâneo, à luz da história e da experiência totalitária.

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A Sala do Âmbito Cultural do El Corte Inglés de Gaia encheu-se no final da tarde de 28 de maio, mesmo num dia de verão antecipado, para escutar José Pacheco Pereira. O tema proposto — George Orwell e a liberdade de expressão — ressoou de forma particularmente pertinente num tempo em que, como frisado logo na abertura, “se calhar precisamos mesmo de falar agora”.

Pacheco Pereira no Âmbito Cultural do EL Corte Inglés.
José Pacheco Pereira dirige-se a uma audiência numerosa, num discurso marcado pela lucidez e pela reflexão crítica sobre os desafios contemporâneos à liberdade de expressão. Foto de FILIPE ARRAIS.

A figura de Orwell e os sinais do tempo

Logo no início da sua intervenção, Pacheco Pereira destacou o papel premonitório de Orwell, afirmando que este “teve a percepção do que havia de acontecer”. A célebre frase do autor britânico, “Quem controla o passado controla o futuro, quem controla o presente controla o passado”, funcionou como mote para uma viagem profunda ao pensamento do autor de 1984.

A sessão foi pontuada por uma contextualização rica: Orwell, nascido na Índia colonial, formado na estrutura imperial britânica, teve experiências diversas — desde a sua passagem pela BBC até à sua participação na Guerra Civil Espanhola, que moldaram a sua escrita e pensamento político.

As experiências que moldaram uma visão crítica

Entre os vários momentos marcantes da sessão, Pacheco Pereira insistiu na importância de se compreender que a verdadeira origem da crítica orwelliana aos totalitarismos não reside apenas na sua observação do estalinismo, mas nas suas experiências mais diretas com a propaganda e o poder, nomeadamente na BBC.

“A experiência da BBC foi essencial para ele perceber os mecanismos de manipulação do discurso público”, afirmou o orador, sublinhando que Orwell aprendeu, por dentro, a forma como se constrói uma narrativa oficial.

A viagem pelas obras de Orwell incluiu reflexões sobre The Road to Wigan Pier, onde se observa a miséria da classe trabalhadora inglesa, e sobre Homenagem à Catalunha, obra nascida da sua experiência como combatente na Guerra Civil Espanhola.

A maquinaria do poder e o controlo da linguagem

Com profundidade e rigor, José Pacheco Pereira traçou paralelos entre a realidade distópica imaginada por Orwell e as formas modernas de opressão, alertando para a crescente tendência de controlo da linguagem, empobrecimento do vocabulário e limitação da expressão.

“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem saber”, citou, apontando esta frase como uma das mais lúcidas definições de liberdade de expressão.

A sessão prosseguiu com uma análise do romance O Triunfo dos Porcos (Animal Farm), com destaque para a frase emblemática: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”. Para o conferencista, esta obra demonstra de forma brilhante como a linguagem é instrumentalizada para servir o poder.

1984 e o presente

A obra 1984 foi o culminar da sessão, onde o conceito de Big Brother, o duplipensar (doublethink) e a novilíngua (newspeak) foram apresentados como instrumentos fundamentais do totalitarismo. “O objetivo do poder é o poder”, afirmou Pacheco Pereira, lendo passagens da obra que descrevem a supressão da memória, a falsificação do passado e o controlo do pensamento.

Houve ainda lugar para um alerta: a atualidade das palavras de Orwell é hoje mais evidente do que nunca. O orador sublinhou que as novas tecnologias, a cultura de vigilância e a censura informal, exercida pela pressão mediática e pelas redes sociais, são novas formas de ameaça à liberdade de expressão.

“O pensamento duplo implica a capacidade de manter ao mesmo tempo duas opiniões contraditórias e aceitá-las ambas”, afirmou, destacando o carácter corrosivo dessa prática para qualquer democracia.

Um apelo à resistência crítica

No final da sessão, Pacheco Pereira deixou claro que a defesa da liberdade de expressão exige vigilância constante. A sessão não se encerrou com respostas fáceis, mas com a convicção de que Orwell continua a ser um autor urgente e necessário.

“Nada pertence ao indivíduo, tudo pertence ao partido. E o partido impõe a sua verdade, que se transforma em realidade única”, leu, perante uma plateia atenta e reflexiva.

Após a passagem de um vídeo em que mostrou como o próprio foi alvo do uso e divulgação de notícia falsas (fake news), na internet, a sessão terminou com aplausos prolongados e com a certeza de que a memória, o pensamento crítico e a liberdade são bens preciosos, que se perdem facilmente se não forem defendidos todos os dias.

OC/RPC

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