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Terça-feira, Fevereiro 24, 2026

Os Orgãos do Segurança

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No fundo do vale, à sombra dos plátanos, cabe um mosteiro que conheci bem. Perpendicular ao rio e ao aqueduto que o acompanha, completa o óleo de um quadro craqueado pelo chilrear dos piscos e pelo correr das águas. De tão sereno, lembra um buda. Em plena reclusão, medita. Será que não?

Por anos, tomei-o como ao abandono. Suas trancas nas portas, suas cortinas corridas, as folhas que lhe alcatifavam os degraus, tudo contribuía para cimentar meu foco no romântico. Aquele lugar, aquelas paredes só a mim respondiam. Só a mim pertencia a chave para tal geografia? Imperava guardar segredo. Fosse um desses fundos sem fundo fisgar minha felicidade, meus momentos de sossego privatizar em prol de um qualquer boutique-hotel na moda do spa e da estrela michelin. É da atualidade, ou impressão minha, tudo se encontrar à venda? Deu-se até o caso de, recentemente, me barrarem a entrada numa muralha onde muito namorei. Dizem ter dono. Que nem a pagar. Estará o país à disposição? Quem retalha nosso passado?

Perdoem-me se pareço exasperado, mas arrelia-me esta despolítica. Este senso do imediato, a troca do histórico pelo rentável, do silêncio pelo fala-barato. Enfim, neste caso, assumo as culpas. Levado pela falsa sensação de isolamento, caí no redondo erro. Toda a ilusão é um conforto? Nada tinha a ver com a razão de dar com aquele sítio ao anoitecer? De dar com ele durante a semana? De vir de longe? De viver numa cidade grande e procurar então um pouco de solitude?

Calhava de jurar, a quem me acompanhava naquele sábado à tarde, que o mosteiro seria nosso e que era da maior urgência desentorpecer as pernas. Por isso, ao cabo de horas de viagem, ciente que lhe causaria um furor próximo ao que encontramos com recorrência na infância – o de abraçar um mundo novo, estacionei junto ao adro e pedi-lhe que o atravessássemos. Que confiasse em contornarmos a igreja pela terra, pisando todas as sombras e todas as ervas até se abrir, nas traseiras, a arcada de um claustro inacabado. Em formato de “U”, virado ao campo, colocava o edifício à mercê de um verde bravo, sem mão, que caminhava livremente do chão às torres e em torno da fonte milenar, seca. O cenário desbloqueou-lhe no rosto um sorriso hollywoodesco e permanecemos calados a contemplar o óleo de um quadro craqueado pelo chilrear dos piscos e pela eventual voz de crianças.

Sim, e uma porta pesada batendo. Afinal, não era só a mim que pertencia a chave para tão inusitada geografia. Afinal, não havia abandono algum. E, para minha paz, numa das alas do mosteiro, funcionava um pequeno infantário onde se ensaiava em coro. Bastava farejar-se a música, passar pela bilheteira e encaixar na escadaria rumo ao primeiro piso. Era na sala em frente que a garotada reunia em efusão máxima e foi aí que estacámos quando, do rés-do-chão, se ouvi um “ohhh” seguido de um “eiii”.

Eu, pessoalmente, sempre recusei virar a cara a um “ohhh” ou a um “eiii”, pois “ohhh’s” lançam-se aos bois e “eiii’s” aos ladrões, e sou nenhum. Portanto, continuei na minha, embora tivesse noção que alguém, talvez um segurança, nos fosse intercetar e interpelar desta forma: “Alto! Não pod…”. Como não?

Logo entendi que o sujeito estava disposto a morrer pela camisola. Indignado e atacado pela tosse de pegar a frio pelo corredor, no dois em dois dos degraus, apressou-se a questionar nossas intenções. Claro que me cheguei à frente e dei o corpo às balas, cumprindo um raciocínio honesto: se não há ninguém na bilheteira, não há bilhetes. Quem diz verdades merece castigos? Positivo. E mandou-nos de requitó para a receção. Era também “caixa”. O responsável pela bilheteira. Seria igualmente o senhor das limpezas? Um faz-tudo? Descendente do arquiteto original? Da famelga do bispo? Suas narinas esfumando, a boca cuspindo labaredas, anunciavam seu ódio e consequente amor. Seria uma extensão do próprio projeto? Um dos seus braços? Sua voz? Seu cavaleiro sem cavalo? O zelador de suas honras e valores? Era, ademais, um estudioso. Tinha na ponta da língua a história de cada set e conjunto de cantos, esquinas e objetos. Seria, tal como perceberão, nosso guia e tudo faria por nos recordar que era ele a possuir O molho de chaves. Melhor… somente ele sabia jogá-las com os respetivos trincos num facto importante: eram dezenas, impossíveis de discernir no ferro e na forma. Era assim que impunha sua autoridade, revolvendo-as no bolso ou balançando-as entre os dedos para que se ouvisse o seu tilintar. Tenho para mim que as via como uma espécie de amantes.

Conforme demos avanço ao que agora se revelava como “museu”, compreendeu-se suas atenções. Decorria o restauro de algumas paredes exteriores e havia material espalhado. Havia também quem se quisesse abonar com os antiquíssimos azulejos. (Começa a dissertação sobre suas cores, técnicas e demais irrelevâncias. Eram únicos, maravilhosos, inacreditavelmente detalhados, lalalala.)

Eis que chegámos ao clímax: o segurança estava também para músico. Percebemo-lo de intuição quando surgiu a possibilidade de subirmos ao coro alto e ele, com seus olhos em regozijo, que lhe saltaram feitos tampas de garrafa prestes a entrar em ebulição, asseverou num tom seco (natural de quem fora instruído a nunca revelar sentimentos) que podia fazer o favor de nos levar. Que não pensássemos que, mas…

Junto do órgão faz-de-conta, por conta, sabe-se, da busca pela perfeição divina, fomos convidados a conhecer, por dentro, o gémeo, seu espelho, do outro lado do coro disposto milimetricamente à sua frente. A conhecer os órgãos de cada órgão daquele bicho que funcionava realmente. A percorrer a sua estrutura interna, nessa semi-sala adjacente, que se entrava por uma porta secreta, que dava para as entranhas do instrumento. (Falo por mim… senti-me num local sagrado. Num à parte da igreja. No seu refúgio dentro do refúgio que ela própria representa.) E foi que o segurança largou esta: “Sabem porque dizem ‘isto é foleiro’? Vem destes foles e dos seus foleiros cujo trabalho ninguém valorizava. Era um trabalho árduo. Vejam o peso do fole.” Para mais, consultem o Wikipedia, adicionei em pensamento, enquanto ele se retirava, sentando-se ao teclado, sem se lembrar de trancar a porta, sem nos pedir que o seguíssemos, demonstrando a complexa afinação da máquina, dando uma palestra de como pôr aquilo a cantar, puxando e pressionando cada maneta para cada tom, selecionando o caminho correto para os nossos corações.

Nas suas sete quintas = felicíssimo, estendeu-se no marfim e esqueceu-se das horas e da regra que o obrigava a fazer cara de mau mesmo quando estava a ter prazer. Ao alçar Mozart, depois de Bach, aconselhou-nos (já não ordenou) a tomar atenção nas suas mãos, que lá em baixo, na nave, não se viam as suas mãos, apesar de se ouvir melhor. Que o segredo estava nas mãos, nos dedos compridos, afirmava, pedindo que imaginássemos os foleiros atrás da porta, suando, e os ajudantes em pé, engrenando um tom de cada vez, o mais rapidamente possível.

Também muito rapidamente se levantou e retomou o seu astral, que o impedia de mostrar os dentes. Sério, garantiu-nos que só havia tocado para que não morresse (o órgão, claro). Que se não tivesse tocado para nós, tê-lo-ia feito no fim do turno. Tudo questões de manutenção. Que o órgão era um ser vivo e, seus tubos, as estradas por onde se canalizava o fulgor das notas. Que a humidade sempre mata a música. Que, novamente, tudo questões de manutenção, parte do trabalho. Não era profissional algum. Nem sonhava ser. Não ia a tempo. Tinha quase quarenta anos e… Tinha sido um prazer, mas já ouvia “clientes” à espera. Seria melhor descer, antes que…

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