Após ter assistido na televisão às declarações do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, no próprio parlamento sobre a série Adolescência, e à sua afirmação de que estava a assistir à mesma na companhia da sua família – “Tenho um rapaz de 16 anos e uma rapariga de 14. É um drama muito bom de ver” – a minha curiosidade foi imediatamente despertada. Decidi então dedicar a tarde do último Domingo a ver a referida série da Netflix, que já é considerada um verdadeiro fenómeno e, em pouco mais de uma semana, foi vista por milhões de pessoas em todo o mundo.
Esta minissérie britânica Adolescência (The Adolescence), criada por Jack Thorne e Stephen Graham, e dirigida por Philip Barantini, tem uma trama intrigante e bastante sombria, pois, foca-se no drama criminal e na investigação de um crime chocante. A história segue Jamie Miller, um estudante de 13 anos, que é preso sob a acusação de assassinar uma colega de classe.
Mas o que é que torna esta minissérie tão popular e impactante? São precisamente os temas – o bullying, a masculinidade tóxica e o impacto das redes sociais nos jovens; bem como a forma como é feita a sua abordagem. A série não se limita a explorar apenas o crime em si, mas vai mais fundo, abordando questões sociais e psicológicas que afetam muitos jovens na nossa sociedade atual.
Um dos aspetos que torna “Adolescência” uma série tão inovadora e diferenciada em relação a outras produções sobre juventude e crime é a forma como procura subverter os clichés típicos que associam jovens delinquentes a famílias disfuncionais e a contextos de insucesso escolar, jovens provenientes de meios socioeconómicos mais desfavorecidos e mais expostos a ambientes violentos. Esta série desafia as expectativas e traz uma perspetiva nova e tão relevante quanto preocupante. O protagonista, Jamie Miller, é descrito como um bom aluno, pertencente a uma família de classe média, o que destoa dos estereótipos frequentemente vistos em histórias sobre jovens violentos e/ou criminosos. Isso cria uma narrativa muito mais complexa e provocadora, pois questiona o que realmente leva um adolescente aparentemente “normal” e bem ajustado, em termos académicos e sociais, a cometer um crime tão grave.
Além disso, o fato de Jamie ter uma boa performance escolar e vir de uma família de classe média também reflete a realidade de muitos adolescentes que, apesar de viverem em um ambiente aparentemente estável, podem estar enfrentando enormes conflitos internos, exacerbados pelas expectativas da sociedade, pelas redes sociais e pelas dinâmicas familiares. Isso torna a história mais universal, mostrando que o sofrimento e os dilemas da adolescência não estão limitados a uma determinada classe social ou contexto familiar, tão pouco a um país ou comunidade.
Ao quebrar esses estereótipos, a série faz uma crítica poderosa à forma como a sociedade lida com o comportamento juvenil, revelando que problemas como o bullying, a masculinidade tóxica e a pressão por aceitação e conformidade por parte dos pares, podem afetar qualquer jovem, independentemente de sua origem e estatuto socioeconômico.
E é sobretudo a possibilidade desta narrativa se tornar real, a sensação de realidade e de proximidade, a forma como estes temas que não são inovadores, mas sim temas que estão presentes nas nossas vidas cotidianas, mas que muitas vezes evitamos ou ignoramos, até que nos confrontam de maneira direta e inevitável. À medida que vão aflorando nas nossas famílias, nas nossas escolas, nas nossas comunidades.
Sabemos há muito que os fenómenos de violência e bullying são transversais à sociedade e estão em crescendo, essencialmente quando associados à influência da internet e das redes socias nos comportamentos dos mais jovens. Mas, o poder da imagem, a forma de abordagem cinematográfica da série, a sua narrativa profunda e bem escrita, abordando questões morais e sociais de uma maneira complexa e desconcertante, fazem-nos identificar com o drama desta família, levando-nos a questionar a nossa própria realidade.
Este drama rapidamente interpela o nosso papel de educadores. Quer enquanto pais, quer como professores, ou tão só como cidadãos inseridos numa comunidade. É aqui que a minissérie se torna realmente importante. Ela serve de ponto de partida à reflexão e ao debate sobre a forma como hoje é vivida a adolescência e como a nossa sociedade lida com as questões envolventes da adolescência.
A tecnologia, especialmente as redes sociais, tem um papel central na vida dos adolescentes atualmente. A comunicação virtual facilita interações com amigos e pessoas de diferentes partes do mundo, mas também pode trazer desafios e problemas, como o bullying online e a pressão por padrões de beleza e sucesso. A emergência de códigos linguísticos partilhados sem crítica, a violência verbal, a exposição e a disputa pela popularidade e aceitação através de um novo ambiente virtual também abre portas para problemas emocionais e psicológicos profundos, especialmente para os mais jovens, que estão ainda em fase de construção da sua identidade.
É o nosso papel de pais, de professores, de adultos que devemos questionar. Tal como o pai do jovem Jamie Miller devemos perguntar-nos se podemos ou poderíamos ter feito mais pelos nossos filhos, pelos nossos alunos, pelos nossos jovens! E esta interpelação individual, sobre os nossos próprios papéis, é tão essencial quanto profunda.
Não há fórmulas nem receitas milagrosas para se ser boa mãe, bom pai, boa professora ou bom professor, boa educadora, bom cidadão…. Educar, formar adolescentes é sempre um desafio. Aquilo que pode resultar numa determinada circunstância e com um determinado jovem, não resulta com a irmã, com outro aluno, é certo. Mas há alguns aspetos essenciais que podem orientar as nossas ações: o diálogo, a escuta ativa, o debate, a reflexão conjunta. O único caminho que pode conduzir à permanência de relações saudáveis, à manutenção de pontes entre gerações – numa altura em que os adolescentes parecem forçar a quebra de todas as regras, numa tentativa radical de se desligarem dos adultos para afirmarem a sua autonomia e identidade, quando passam a valorizar os seus pares mais do que tudo o resto – é o caminho da comunicação, da manutenção de canais abertos.
E é nessa busca de canais de comunicação e de aproximação dos adolescentes que emergem questões ainda mais densas. Como não os deixar isolados sem invadir a sua privacidade? Como respeitar o seu espaço e a sua identidade sem forçar ou impor uma presença não desejada? Como mostrar que continuamos presentes e que aceitamos as mudanças mesmo quando não concordamos com determinados comportamentos? Como nos mantermos firmes nas atitudes e nos valores que defendemos sem proibir e sem julgar permanentemente?
Estas questões que surgem na série Adolescência são, sem dúvida, extremamente densas e fundamentais para a compreensão das dinâmicas familiares e sociais que envolvem a adolescência. A busca por canais de comunicação e a aproximação dos adolescentes, ao mesmo tempo em que se respeita a sua privacidade e identidade, é um dos maiores desafios para pais, educadores e outras figuras de autoridade.
É difícil. Implica dilemas, tempo, discussões, medos. Implica por vezes o confronto com algo perturbador, e com a nossa própria capacidade de aceitarmos que os filhos crescem, deixam de ser crianças e tornam-se progressivamente pessoas com uma autonomia e identidade próprias, e nesse trajeto há erros, falhas, fragilidades, sofrimento.
Difícil, mas não impossível. É como entrar numa viagem conjunta, munidos de boas doses de bom senso, autocontrole emocional, capacidade de escuta e respeito pela liberdade do outro. Uma viagem sem roteiros pré-definidos, sem paragens calculadas, sem preconceitos e sem tentativas de controle. Tal como embarcamos na vida – procurando resolver cada problema, conscientes dos perigos e com medo do desconhecido, curiosos e preocupados, cautelosos mas confiantes, – humanos, de carne e osso.
E isso é precisamente o que torna esta minissérie “Adolescência” tão poderosa: ela não só nos faz questionar até que ponto estamos realmente atentos ao que acontece ao nosso redor, mas também nos desafia a refletir sobre as nossas próprias atitudes e abordagens em relação aos adolescentes e aos problemas que enfrentam.
O impacto emocional da série não está apenas no que acontece com os personagens, mas também em como nos sentimos em relação à possibilidade de tais situações acontecerem connosco. E é a reflexão e o debate que a série suscita que nos pode abrir novos caminhos criando ambientes onde os mais jovens possam expressar-se, possam falar abertamente das suas dificuldades e sofrimentos, das suas inseguranças e conflitos. Porque, urge entender e apoiar o processo de transformação que os jovens estão vivendo. Para isso é preciso ouvir mais. Ouvir melhor. Ouvir.
Colaboradora/Filósofa














